Os membros da Igreja Holística evitam ser empregados ou patrões de quem quer que seja. Procuram sempre a via da autonomia, sempre que possível trabalham em conjunto e participam dos lucros ou reveses que houver. Sabem que são integralmente responsáveis por suas vidas e empreendimentos, não fazem seguro de nenhuma espécie.
O livro a seguir é recomendado.

Discurso Sobre a Servidão Voluntária

Etienne de La Boétie
Palavras iniciais

Etienne de La Boétie morreu aos 33 anos de idade, em 1563. Deixou sonetos, traduções de Xenofonte e Plutarco e o Discurso Sobre a Servidão Voluntária, o primeiro e um dos mais vibrantes hinos à liberdade dentre os que já se escreveram.
Toda a sua obra ficou como legado ao filósofo Montaigne (1533 – 1592), seu amigo pessoal que, diante de uma primeira publicação – pirata – do Discurso em 1571, viu-se obrigado a se pronunciar a respeito da Obra, que procura minimizar em seus efeitos apodando-lhe o epíteto de “obra de infância” e “mero exercício intelectual”. Montaigne, com todo o seu inegável brilho intelectual, era um Homem do Estado e disso não escapava.
Entre muitos pontos importantes e relevantes do Discurso em si, ressalta-se:
_ O poder que um só homem exerce sobre os outros é ilegítimo.
_ A preferência pela república em detrimento da monarquia.
_ As crenças religiosas são frequentemente usadas pelas monarquias para manter o povo sob sujeição e jugo.
_ Etienne de La Boétie afirma no Discurso a liberdade e a igualdade de todos os homens na dimensão política.
_ Evidencia, pela primeira vez na história, a força da opinião pública.
_ Repele todas as formas de demagogia.
_ Incursionando pioneiramente pelo que mais tarde ficará conhecido como psicologia de massas, informa da irracionalidade da servidão, desde o título provocativo da Obra, indicada como uma espécie de vício, de doença coletiva.
O Discurso, que no século XVI Montaigne considerava difícil prefaciar, hoje em dia é ainda tristemente atual.
O ser humano encontra-se em amarras auto-infligidas por toda a parte. Como dizia Manuel J. Gomes, importante tradutor de La Boétie para o português:
“Se em 1600 era tarefa difícil escrever um prefácio a La Boétie, hoje não é mais fácil. Hoje como nos tempos de La Boétie e Montaigne, a alienação é demasiado doce (como um refrigerante) e a liberdade demasiado amarga, porque está demasiado próxima da solidão. E da loucura.”
Discurso Sobre a Servidão Voluntária

Etienne de La Boétie

Muita gente a mandar não me parece bem;
Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.

Assim proclamava publicamente Ulisses em Homero [Homero, Ilíada, cap. II] Teria toda a razão se tivesse dito apenas:

Muita gente a mandar não me parece bem.

Deveria, para ser mais claro, ter explicado que o domínio de muitos nunca poderia ser boa coisa pela razão de o domínio de um só que usurpe o título de soberano ser já assaz duro e pouco razoável; em vez disso, porém, acrescentou:

Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.

Uma única desculpa terá Ulisses e é a necessidade que teve de recorrer a tais palavras para apaziguar as tropas amotinadas, adaptando (julgo) o discurso às circunstâncias mais do que à verdade.
Vistas bem as coisas, não há infelicidade maior do que estar sujeito a um chefe; nunca se pode confiar na bondade dele e só dele depende o ser mau quando assim lhe aprouver.
Ter vários amos é ter outros tantos motivos para se ser extremamente desgraçado.
Não quero por enquanto levantar o discutidíssimo problema de saber se as outras formas de governar a coisa pública são melhores do que a monarquia. A minha intenção é antes interrogar-me sobre o lugar que à monarquia cabe, se algum lhe cabe, entre as mais formas de governar. Porque não é fácil admitir que o governo de um só tenha a preocupação da coisa pública.
É melhor, todavia, que esse problema seja discutido separadamente, em tratado próprio, pois é daqueles que traz consigo toda a casta de disputas políticas.
Quero para já, se possível, esclarecer tão-somente o fato de tantos homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem às vezes um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo; que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem agüentá-lo a contrariá-lo.
Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente.
Tal é a fraqueza humana: temos frequentemente de nos curvar perante a força, somos obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais fortes.
Se, portanto, uma nação é pela força da guerra obrigada a servir a um só, como a cidade de Atenas aos trinta tiranos, não nos espanta que ela se submeta; devemos antes lamentá-la; ou então, não nos espantarmos nem lamentarmos mas sofrermos com paciência e esperarmos que o futuro traga dias mais felizes.
Está na nossa natureza o deixarmos que os deveres da amizade ocupem boa parte da nossa vida. É justo amarmos a virtude, estimarmos as boas ações, ficarmos gratos aos que fazem o bem, renunciarmos a certas comodidades para melhor honrarmos e favorecermos aqueles a quem amamos e que o merecem. Assim também, quando os habitantes de um país encontram uma personagem notável que dê provas de ter sido previdente a governá-los, arrojado a defendê-los e cuidadoso a guiá-los, passam a obedecer-lhe em tudo e a conceder-lhe certas prerrogativas; é uma prática reprovável, porque vão acabar por afastá-lo da prática do bem e empurrá-lo para o mal. Mas em tais casos julga-se que poderá vir sempre bem e nunca mal de quem um dia nos fez bem.
Mas o que vem a ser isto, afinal?
Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício é este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não governadas mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam chamar sua? Suportar a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, contra os quais dariam o sangue e a vida, mas de um só? Não de um Hércules ou de um Sansão, mas de um só indivíduo, que muitas vezes é o mais covarde e mulherengo de toda a nação, acostumado não tanto à poeira das batalhas como à areia dos torneios, menos dotado para comandar homens do que para ser escravo de mulheres?
Chamaremos a isto covardia? Temos o direito de afirmar que todos os que assim servem são uns míseros covardes?
É estranho que dois, três ou quatro se deixem esmagar por um só, mas é possível; poderão dar a desculpa de lhes ter faltado o ânimo. Mas quando vemos cem ou mil submissos a um só, não podemos dizer que não querem ou que não se atrevem a desafiá-lo.
Como não é covardia, poderá ser desprezo, poderá ser desdém? Quando vemos não já cem, não já mil homens, mas cem países, mil cidades e um milhão de homens submeterem-se a um só, todos eles servos e escravos, mesmo os mais favorecidos, que nome é que isto merece? Covardia?
Ora todos os vícios têm naturalmente um limite além do qual não podem passar. Dois podem ter medo de um, ou até mesmo dez; mas se mil homens, se um milhão deles, se mil cidades não se defendem de um só, não pode ser por covardia.
A covardia não vai tão longe, da mesma forma que a valentia também tem os seus limites: um só não escala uma fortaleza, não defronta um exército, não conquista um reino.
Que vício monstruoso então é este que sequer merece o nome vil de covardia? Que a natureza nega ter criado, a que a língua se recusa nomear?
Disponham-se de um lado cinqüenta homens armados e outros tantos de outro lado; ponham-se em ordem de batalha, prontos para o combate, sendo uns livres e lutando pela liberdade, enquanto os outros tentam arrebatá-la dos primeiros: a quais deles, por conjectura, se atribui a vitória? Quais deles irão para a luta com maior entusiasmo: os que, em recompensa deste trabalho receberão o prêmio de conservar a liberdade ou os que, dos golpes que derem ou receberem, esperam tão-somente a servidão?
Os primeiros têm constantemente diante dos olhos a felicidade de sua vida passada, a esperança de no porvir a poderem conservar. Preocupa-os menos o que têm de sofrer no decurso da batalha do que tudo o que vão ter de suportar eles, os filhos e toda a posteridade. Os outros nada têm que os anime, a não ser um pouco de cobiça que é insuficiente para protegê-los do perigo e tão pouco ardente que não tardará a extinguir-se logo que derramem as primeiras gotas de sangue.
Nas muito famosas batalhas de Milcíades, Leônidas e Temístocles, travadas há já dois mil anos e que permanecem tão frescas na memória dos livros e dos homens como se tivessem acontecido ontem, nessas batalhas travadas na Grécia para bem da Grécia e exemplo do mundo inteiro, donde terá vindo aos gregos escassos não digo o poder mas o ânimo para se oporem à força de navios tão numerosos que mal cabiam no mar? E para desbaratarem nações tão numerosas que em toda a armada grega não se achariam soldados que chegassem para preencherem, se tal fosse mister, os postos de comandantes desses navios?
É que, em boa verdade, o que estava em causa nesses dias gloriosos não era tanto a luta entre gregos e persas como a vitória da liberdade sobre a dominação, da razão sobre a cupidez.
Quantos prodígios temos ouvido contar sobre a valentia que a liberdade põe no coração dos que a defendem!
Mas o que acontece afinal em todos os países, com todos os homens, todos os dias?
Quem, só de ouvir contar, sem o ter visto, acreditaria que um único homem tenha logrado esmagar mil cidades, privando-as da liberdade?
Se casos tais acontecessem apenas em países remotos e outros no-los contassem, quem não diria que era tudo invenção e impostura?
Ora o mais espantoso é sabermos que nem sequer é preciso combater esse tirano, não é preciso defendermos-nos dele.
Ele será destruído no dia em que o país se recuse a servi-lo.
Não é necessário tirar-lhe nada, basta que ninguém lhe dê coisa alguma.
Não é preciso que o país faça coisa alguma em favor de si próprio, basta que não faça nada contra si próprio.
São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir.
É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios.
Se fosse difícil recuperar a liberdade perdida, eu não insistiria mais; haverá coisa que o homem deva desejar com mais ardor do que o retorno à sua condição natural, deixar, digamos, a condição de alimária e voltar a ser homem?
Mas não é essa ousadia o que eu exijo dele; limito-me a não lhe permitir que ele prefira não sei que segurança a uma vida livre.
Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la?
Se basta um ato de vontade, se basta desejá-la, que nação há que a considere assim tão difícil?
Como pode alguém, por falta de querer, perder um bem que deveria ser resgatado a preço de sangue? Um bem que, uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar?
Veja-se como, ateado por pequena fagulha, acende-se o fogo, que cresce cada vez mais e, quanto mais lenha encontra, tanta mais consome; e como, sem se lhe despejar água, deixando apenas de lhe fornecer lenha a consumir, a si próprio se consome, perde a forma e deixa de ser fogo.
Assim são os tiranos: quanto mais eles roubam, saqueiam, exigem, quanto mais arruínam e destroem, quanto mais se lhes der e mais serviços se lhes prestarem, mais eles se fortalecem e se robustecem até aniquilarem e destruírem tudo. Se nada se lhes der, se não se lhe obedecer, eles, sem ser preciso luta ou combate, acabarão por ficar nus, pobres e sem nada; da mesma forma que a raiz, sem umidade e alimento, se torna ramo seco e morto.
Os audazes, para que obtenham o que procuram, não receiam perigo algum, os avisados não recusam passar por problemas e privações. Os covardes e os preguiçosos não sabem suportar os males nem recuperar o bem. Deixam de desejá-lo e a força para o conseguirem lhes é tirada pela covardia, mas é natural que neles fique o desejo de o alcançarem. Esse desejo, essa vontade, são comuns aos sábios e aos indiscretos, aos corajosos e aos covardes; todos eles, ao atingirem o desejado, ficam felizes e contentes.
Numa só coisa, estranhamente, a natureza se recusa a dar aos homens um desejo forte. Trata-se da liberdade, um bem tão grande e tão aprazível que, perdida ela, não há mal que não sobrevenha e até os próprios bens que lhe sobrevivam perdem todo o seu gosto e sabor, corrompidos pela servidão.
A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter.
Gentes miserandas, povos insensatos, nações apegadas ao mal e cegas para o bem!
Assim deixais que vos arrebatem a maior e melhor parte das vossas riquezas, que devastem os vossos campos, roubem as vossas casas e vo-las despojem até das antigas mobílias herdadas dos vossos pais!
A vida que levais é tal que (podeis afirmá-lo) nada tendes de vosso.
Mas parece que vos sentis felizes por serdes senhores apenas de metade dos vossos haveres, das vossas famílias e das vossas vidas; e todo esse estrago, essa desgraça, essa ruína provêm afinal não dos seus inimigos, mas de um só inimigo, daquele mesmo cuja grandeza lhe é dada só por vós, por amor de quem marchais corajosamente para a guerra, por cuja grandeza não recusais entregar à morte as vossas próprias pessoas.
Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.
Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis?
Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas?
Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos?
Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha?
Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência?
Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos?
Semeais os vossos frutos para ele pouco depois calcar aos pés. Recheais e mobiliais as vossas casas para ele vir saqueá-las, criais as vossas filhas para que ele tenho em quem cevar sua luxúria.
Criais filhos a fim de que ele, quando lhe apetecer, venha recrutá-los para a guerra e conduzi-los ao matadouro, fazer deles acólitos da sua cupidez e executores das suas vinganças.
Matai-vos a trabalhar para que ele possa regalar-se e refestelar-se em prazeres vis e imundos.
Enquanto vós definhais, ele vai ficando mais forte, para mais facilmente poder refrear-vos.
E de todas as ditas indignidades que os próprios brutos, se as sentissem, não suportariam, de todas podeis libertar-vos, se tentardes não digo libertar-vos, mas apenas querer fazê-lo.
Tomai a resolução de não mais servirdes e sereis livres. Não vos peço que o empurreis ou o derrubeis, mas somente que o não apoieis: não tardareis a ver como, qual Colosso descomunal, a que se tire a base, cairá por terra e se quebrará.
Os médicos aconselham a não se tocar com a mão nas chagas incuráveis; não é, pois, sensato que eu dê conselhos a um povo que há muito perdeu a consciência e cuja doença, uma vez que ele já não sente dor, é evidentemente mortal. Temos, antes, de procurar saber como esse desejo teimoso de servir se foi enraizando a ponto de o amor à liberdade parecer coisa pouco natural.
Antes demais, eu creio firmemente que, se nós vivêssemos de acordo com a natureza e com os seus ensinamentos, seríamos naturalmente obedientes ao país, submissos à razão e de ninguém escravos.
Todos os homens, por si próprios, sem outro conselho que não seja o da natureza, guardam obediência ao pai e à mãe; quanto à razão, discutem muito os acadêmicos e todas as escolas filosóficas se ela nasce ou não conosco.
De momento penso não errar se crer que há na nossa alma uma semente natural de razão, a qual, se cultivada com bons conselhos e bons costumes, floresce em virtude; se, pelo contrário, é atacada pelos vícios, morre de asfixia e aborta.
Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de Deus e governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma, aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos como companheiros ou mesmo irmãos.
Ao fazer as partilhas dos dons que nos legou, deu, mais a uns do que a outros, certos dons corporais e espirituais; mas é igualmente certo que não pretendeu pôr-nos neste mundo como em campo fechado, nem deu aos mais fortes e aos mais avisados ordem para, quais salteadores emboscados no mato e armados, dizimarem os mais fracos.
É de crer, isso sim, que, favorecendo alguns e desfavorecendo outros, pretendia dar lugar à fraterna afeição, dar-lhes meios de se manifestar, pois se a uns assiste o poder de ajudar, os outros tinham necessidade de ser ajudados.
Esta boa mãe deu-nos a todos a terra para nela morarmos, albergou-nos a todos numa mesma casa, moldou-nos a todos numa mesma massa, para assim todos podermos mirar-nos e reconhecer-nos uns nos outros; a todos em comum outorgou o grande dom da voz e da palavra para sermos mais amigos e mais irmãos e, pela comum e mútua declaração dos nossos pensamentos, estabelecermos a comunhão de nossas vontades.
E pois ela buscou por todos os meios apertar e estreitar mais fortemente os nós da nossa aliança e sociedade, e por todas as formas mostrou mais desejar ver-nos unidos do que unos, não há dúvida de que somos todos companheiros e ninguém poderá jamais admitir que a natureza, integrando-nos a todos numa sociedade, tenha destinado uns para escravos.
Não importa verdadeiramente discutir se a liberdade é natural, provado que esteja ser a escravidão uma ofensa para quem a sofre e uma injúria à natureza que em tudo quanto faz é razoável.
Não há dúvidas, pois, de que a liberdade é natural e que, pela mesma ordem e de idéias, todos nós nascemos não só senhores da nossa alforria mas também com condições para a defendermos.
Se acaso pusermos isso em dúvida e descermos tão baixo que não sejamos capazes de reconhecer qual o nosso direito e as nossas qualidades naturais, vou ter de vos tratar como mereceis e por os próprios animais a dar-vos lições e a ensinar-vos qual é vossa verdadeira natureza e condição.
Só quem for surdo não ouve o que dizem os animais: viva a liberdade! Muitos deles morrem quando os apanham. Como o peixe que, fora da água, perde a vida, também outros animais se negam a viver sem a liberdade que lhes é natural.
Se os animais estabelecessem entre si quaisquer grandezas e proeminências, fariam (creio firmemente) da liberdade a sua nobreza.
Alguns há que, dos maiores aos menores, ao serem presos, opõem resistência com as garras, os chifres, as patas e o bico, demonstrando assim claramente o quanto prezam a liberdade perdida. E uma vez no cativeiro, dão evidentes sinais do conhecimento que têm da sua desgraça e deixam ver perfeitamente que se sentem mais mortos do que vivos, continuando a viver mais para lamentarem a liberdade perdida do que por lhes agradar a servidão.
O que quer dizer o elefante que, depois de se defender até mais não poder, sentindo-se impotente e prestes a ser apanhado, espeta as presas nas árvores e as quebra, assim mostrando o grande desejo que tem de continuar livre como nasceu?
Assim dá a entender que deseja negociar com os caçadores, dando-lhes os dentes para que o soltem, entregando-lhes o marfim em penhor da liberdade.
Começamos a domesticar o cavalo, desde o momento em que ele nasce, preparamo-lo para nos servir e não podemos glorificar-nos de que, uma vez domado, ele não morde o freio e não se empina quando o esporeamos, como se (assim parece) quisesse mostrar à natureza e testemunhar por essa forma que serve não de boa vontade mas por ser obrigado a servir.
Até os bois sob o jugo andam gemendo
E na gaiola as aves vão chorando
Que dizer perante isto? Que, como escrevi no tempo em que versejava à francesa (não receio, escrevendo-te me particular, citar versos meus, coisa que nunca faço; como tens mostrado gostar deles, não me acusarás de ser pretensioso).
Todas as coisas que têm sentimento sentem a dor da sujeição e suspiram pela liberdade; as alimárias, feitas para servirem o homem não são capazes de se habituar à servidão sem protestarem desejos contrários.
A que azar, pois, se deverá que o homem, livre por natureza, tenha perdido a memória da sua condição e o desejo de a ela regressar?
Há três espécies de tiranos. Refiro-me aos maus príncipes. Chegam uns ao poder por eleição do povo, outros por força das armas, outros sucedendo aos da sua raça.
Os que chegam ao poder pelo direito da guerra portam-se como quem pisa terra conquistada.
Os que nascem reis, as mais das vezes, não são melhores; nascidos e criados no sangue da tirania, tratam os povos em quem mandam como se fossem seus servos hereditários; e, consoante a compleição a que são mais atreitos, avaros ou pródigos, assim fazem do reino o que fazem com outra herança qualquer.
Aquele a quem o povo deu o Estado deveria ser mais suportável; e sê-lo-ia a meu ver, se, desde o momento em que se vê colocado em altos postos e tomando o gosto à chamada grandeza, não decidisse ocupá-los para todo o sempre. O que geralmente acontece é tudo fazerem para transmitirem aos filhos o poder que o povo lhes concedeu. E, tão depressa tomam essa decisão, por estranho que pareça, ultrapassam em vício e até em crueldade os outros tiranos; para conservarem a nova tirania, não acham melhor meio do que aumentar a servidão e afastar tanto dos súditos a idéia de liberdade que eles, tendo embora a memória fresca, começam a esquecer-se dela.
Assim, para dizer toda a verdade, encontro entre eles alguma diferença, mas não vejo por onde escolher.
Sendo diversos os modos de alcançar o poder, a forma de reinar é sempre idêntica.
Os eleitos procedem como quem doma touros; os conquistadores como quem se assenhoreia de uma presa a que têm direito; os sucessores como quem lida com escravos naturais.
Se acaso hoje nascesse um povo completamente novo, que não estivesse acostumado à sujeição nem soubesse o que é a liberdade, que ignorasse tudo sobre uma e outra coisa, incluindo os nomes, e se lhe fosse dado a escolher entre o ser sujeito ou o viver a liberdade, qual seria a escolha desse povo?
Não custa a responder que prefeririam obedecer à razão em vez de servirem a um homem; a não ser que se tratasse dos israelitas, os quais, sem ninguém os obrigar e sem necessidade, elegeram um tirano [I Samuel, capítulo 8]; mas nunca leio a história de tal povo sem uma grande decepção e alguma fúria, tanta que quase me alegro por lhe terem acontecido tantas desgraças.
Uma coisa é certa, porém: os homens, enquanto neles houver algo de humano, só de deixam subjugar se foram forçados ou enganados; enganados pelas armas estrangeiras, como Esparta e Atenas pelas forças de Alexandre, ou pelas facções, como aconteceu quando o governo de Atenas caiu nas mãos de Pisístrates [Pisístrates (600 – 527) foi por três vezes tirano de Atenas. Da primeira vez foi derrubado por Licurgo. Da segunda por Hermódio e Aristogíton. Deve-se, contudo, a Pisístrates a compilação das obras de Homero, como a Ilíada e a Odisséia.].
Muitas vezes perdem a liberdade porque são levados ao engano, não são seduzidos por outrem mas sim enganados por si próprios. Assim, o povo de Siracusa, cidade capital da Sicília, denominada hoje Saragoça [aqui Boétie se equivoca…], apertado pelas guerras, sem olhar a nada a não ser o perigo, elevou ao poder Dionísio Primeiro e entregou-lhe o comando do exército. Tantos poderes lhe foi dando que o velhaco, uma vez vitorioso, como se tivesse triunfado não sobre os inimigos, mas sobre os cidadãos, subiu de capitão a rei e de rei a tirano.
Incrível coisa é ver o povo, uma vez subjugado, cair em tão profundo esquecimento da liberdade que não desperta nem a recupera; antes começa a servir com tanta prontidão e boa vontade que parece ter perdido não a liberdade mas a servidão.
É verdade que, a princípio, serve com constrangimento e pela força; mas os que vêm depois, como não conheceram a liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem esforço e fazem de boa mente o que seus antepassados tinham feito por obrigação.
Assim é: os homens nascem sob o jugo, são criados na servidão, sem olharem para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, nunca pensam ter outro direito nem outro bem senão o que encontraram ao nascer, aceitam como natural o estado que acharam à nascença.
E todavia não há herdeiro tão pródigo e desleixado que uma vez não passe os olhos pelos livros de registros, para ver se goza de todos os direitos hereditários e se não foi esbulhado nos seus direitos, ele ou o seu predecessor.
Mas o costume, que sobre nós exerce um poder considerável, tem uma grande orça de nos ensinar a servir e (tal como de Mitrídates se diz que aos poucos foi se habituando a beber veneno) a engolir tudo até que deixamos de sentir o amargor do veneno da servidão.
Não pode negar-se que a natureza tem força para nos levar aonde ela queira e fazer a nós livres ou escravos; mas importa confessar que ela tem sobre nós menos poder do que o costume e que a natureza, por muito boa que seja, acaba por se perder se não for tratada com os cuidados necessários; e o alimento que comemos transmite-nos muito de seu, faça a natureza o que fizer.
As sementes do bem que a natureza em nós coloca são tão pequenas e inseguras que não agüentam o embate do alimento contrário. Não se mantêm facilmente, estragam-se, desfazem-se, reduzem-se a nada. Como acontece com as árvores de fruto, possuidoras de uma natureza própria que conservarão enquanto as deixarem; mas passarão a ter outra e a dar frutos estranhos, não os delas, a partir do momento em que sejam enxertadas.
As ervas têm cada uma a sua propriedade, a sua natureza e a sua singularidade próprias; mas o frio, o tempo, a terra ou a mão do jardineiro acrescentam-lhe ou tiram-lhe muitas das suas virtudes. Vê-se num sítio uma planta que outro sítio não reconhece.
Vejam-se os venezianos, um punhado de pessoas livres, tanto que até o pior de todos se recusaria a ser rei, nascidos e criados de tal modo que a grande ambição deles é defenderem ciosamente a liberdade de cada um; educados desde o berço nestes princípios, não aceitariam todas as outras felicidades da terra, se para isso tivessem de perder a menor de suas liberdades. Vejam-se os venezianos, repito, e repare-se depois nos que habitam as terras daquele a que chamamos Grão-Senhor, gente que nada mais faz do que servi-lo e que, para o manterem no poder, dão a própria vida.
Diria quem visse uns e outros que possuem todos a mesma natureza?
Não julgaria antes que saíra de uma cidade de homens para entrar num curral de animais? Licurgo, reformador de Esparta, criara (diz-se) dois cães que eram irmãos, alimentados com o mesmo leite, um deles habituado a ficar na cozinha e o outro acostumado a correr pelo campo, ao som da trompa e da corneta; querendo mostrar ao povo lacedemônio que os homens são o que a educação faz de cada um, colocou os dois cães no meio da praça e, no meio deles, uma sopa e uma lebre. Um correu para o prato e o outro para a lebre. Muito embora (disse ele) fossem irmãos.
Lembrarei com prazer um dito dos favoritos de Xerxes, senhor da Pérsia, a respeito dos espartanos.
Quando Xerxes se aparelhava para conquistar a Grécia, mandou embaixadores às cidades gregas, a pedir-lhes água e terra. A Esparta e Atenas não os enviou, porque os enviados de seu pai, Dario que lá tinha ido fazer igual pedido, tinham-nos os espartanos e atenienses lançado em covas e outros em poços, dizendo-lhes que tirassem terra e água à vontade e que fossem levá-la a seu príncipe.
Nenhum daqueles povos tolerava que, sequer por palavras, alguém lhes tocasse na liberdade.
Por assim terem feito, viram os espartanos que tinham incorrido no ódio dos próprios deuses, especialmente no de Taltíbio, deus dos arautos.
Para os apaziguarem, mandaram a Xerxes dois cidadãos, para que fossem à presença dele e ele os tratasse como lhe aprouvesse, tirando assim a desforra dos embaixadores que seu pai enviara e tinham sido mortos. Dois espartanos, um de nome Specto e outro Bulis, ofereceram-se voluntariamente para esta missão.
Foram e, pelo caminho, entraram no palácio de um persa chamado Gidarno, lugar-tenente do rei em todas as cidades do litoral da Ásia. Este os recebeu com muita honraria. E como fossem conversando sobre vários assuntos, perguntou-lhes que motivos tinham para recusarem a amizade do rei. “Podeis crer, espartanos (dizia-lhes), juro-vos que o rei sabe honrar quem o merece e, se vos tornardes seus súditos, vereis que assim é. Se aceitardes e ele vos conhecer, vereis como será cada um de vós nomeado imediatamente senhor de uma cidade da Grécia.”
Ao que lhe responderam os lacedemônios: “Ruim conselho é o que nos dás, Gidarno. O bem que nos prometes, já o experimentaste, mas nada sabes do que nós já possuímos; gozas do favor do rei, mas nada sabes da liberdade, do gosto que ela tem, da sua doçura. Se a conhecesses, havias de nos aconselhar a defendê-la, não só com lança e escudo, mas até com unhas e dentes.”
O espartano é que tinha razão; mas um e outro falavam de acordo com o que tinham aprendido.
Não era possível ao persa avaliar a liberdade, pois nunca a tivera, nem ao lacedemônio aceitar a sujeição, depois de ter conhecido o gosto da liberdade.
Catão de Útica, quando era ainda menino de escola, entrava muitas vezes na casa do ditador Sila cujas portas lhe estavam abertas, não só por pertencer a uma família nobre, como até por ser parente próximo de Sila.
Acompanhava-o sempre o preceptor, como era costume entre os filhos de boas famílias.
Deu ele então conta de que em casa de Sila, na presença deste ou por sua ordem, muitos cidadãos eram presos e condenados, eram uns banidos e outros estrangulados, decretava-se a confiscação dos bens e era perdida a cabeça de muitos.
Ou seja, mais parecia o paço do tirano do que a morada do governador da cidade, era menos um tribunal de justiça do que uma espelunca da tirania.
Perguntou o nobre infante ao preceptor: “Dar-me-eis um punhal? Metê-lo-ei sob a toga e, como entro muitas vezes nos aposentos de Sila, antes de ele acordar, o meu braço há de ter força suficiente para libertar o povo.”.
Este é um dito digno de Catão. Assim já se revelava digno da morte que teve.
Mas se porventura a história não referisse o nome dele nem o local, seria facílimo adivinhar que se trata de um romano e natural de Roma, da verdadeira Roma, quando ela era livre.
Mas para que dizer mais? Em boa verdade não creio que o país o a terra importem muito. Em todos os países em todos os climas, sabe mal a sujeição e é gostosa a liberdade.
Dignos de dó são os que nasceram com a canga no pescoço.
Devem ser desculpados e perdoados, pois, nunca tendo visto sequer a sombra da liberdade e ninguém lha tendo mostrado, não sabem como é mal serem escravos.
Há países em que o Sol aparece de modo diverso daquele a que estamos habituados: depois de brilhar durante seis meses seguidos, deixa-os ficar mergulhados na escuridão, nunca os visitando no meio do ano; se os que nasceram durante essa longa noite nunca tivessem ouvido falar do dia, seria de espantar que eles se habituassem às trevas em que nasceram e nunca desejassem a luz?
Nunca se lastima o que não se conhece, só se tem desgosto depois de ter gozado o prazer, depois de se ter conhecido o bem e se recordar a alegria passada.
É natural no homem o ser livre e o querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que a educação lhe dá.
Diga-se, pois, que acaba por ser natural tudo o que o homem obtém pela educação e pelo costume; mas da essência da sua natureza é o que lhe vem da mesma natureza pura e não alterada; assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito: provam-no os cavalos sem rabo que no princípio mordem o freio e acabam depois por brincar com ele; e os mesmos que se rebelavam contra a sela acabam por aceitar a albarda e usam muito ufanos e vaidosos os arreios que os apertam.
Afirmam que sempre viveram na sujeição, que já os pais assim tinham vivido. Pensam que são obrigados a usar freio, provam-no com exemplos e com o fato de há muito serem propriedade daqueles que os tiranizam.
Mas a verdade é que os anos não dão o direito de se praticar o mal, antes agravam a injúria.
Sempre haverá umas poucas almas melhor nascidas do que outras, que sentem o peso do jugo e não evitam sacudi-lo, almas que nunca se acostumam à sujeição e que, à imitação de Ulisses, o qual por mar e terra procurava avistar o fumo de sua casa, nunca se esquecem dos seus privilégios naturais, nem dos antepassados e de sua antiga condição.
São esses dotados de claro entendimento e espírito clarividente; não se limitam, como o vulgo, a olhar só para o que têm adiante dos pés, olham também para trás e para frente e, estudando bem as coisas passadas, conhecem melhor o futuro e o presente.
Além de terem um espírito bem formado, tudo fazem para aperfeiçoá-lo pelo estudo e pelo saber.
Esses, ainda quando a liberdade se perdesse por completo e desaparecesse para sempre do mundo, não deixariam de imaginá-la, de senti-la e saborear; para eles, a servidão, por muito bem disfarçada que lhes aparecesse, nunca seria coisa boa.
O Grão-Turco teve perfeita consciência de que os livros e a doutrina, mais do que qualquer outra coisa, dão aos homens a capacidade de se conhecerem e de odiarem a tirania. Sabe-se que nas suas terras não há mais sábios do que os que lhe convém a ele.
Acontece que o zelo e a dedicação dos que, apesar de tudo, prezam a liberdade, não têm efeito algum, pois, mesmo que sejam em grande número, não se podem conhecer uns aos outros.
A tirania subtrai-lhes toda e qualquer liberdade de agir, de falar e quase de pensar.
Têm de guardar só para eles as suas fantasias. Razão tinha Momo para zombar, quando censurou o homem forjado por Vulcano, por não lhe ter feito no coração uma janela através da qual pudessem ser vistos os seus pensamentos.
É sabido que Brutus e Cássio, ao planejarem a libertação de Roma, ou antes, do mundo inteiro, não quiseram que Cícero, o maior zelador do bem público, entrasse na conspiração; julgaram que tinha um coração demasiado débil para tal façanha, confiavam na vontade dele, mas não estavam muito seguros da sua coragem. Quem estudar os efeitos da antiguidade e as velhas crônicas descobrirá que, vendo-se o país mal governado e maltratado, e tomando-se a decisão firme de libertá-lo, poucos ou nenhum deixaram de consegui-lo; tiveram nisso a ajuda da própria liberdade, ansiosa por renascer.
Harmódio, Aristogíton, Trasíbulo, Brutus-o-Velho, Valério e Díon executaram cabalmente o que valorosamente planejaram. Em casos assim, a sorte quase nunca falta a quem quer o bem. O jovem Brutus e Cássio derrubaram a servidão e repuseram a liberdade, tendo por isso morrido, mas não desonrosamente. Desonroso seria dizer que foi desonrosa a vida ou a morte desses jovens. Tristeza e desgraça foram a ruína da república que viria a ser enterrada com eles. As conjuras que depois houve contra os imperadores romanos foram todas atos de gente ambiciosa e não devemos lamentar as derrotas que sofreram; era evidente que não queriam derrubar mas arruinar a coroa, pretendiam expulsar o tirano e manter a tirania. Não é para mim desejável que eles tivessem triunfado e apraz-me que, pelo exemplo, tenham mostrado com não se deve abusar do sagrado nome da liberdade para levar a cabo ruins empreendimentos.
Mas, voltando ao assunto principal de que me afastei: a primeira razão que leva os homens a servirem de boamente é o terem nascidos e sido criados na servidão.
A esta soma-se outra que é a de, sob a tirania, os homens se tornarem covardes e efeminados.
Nisso concordo com Hipócrates, pai da medicina, que assim afirmou e escreveu num de seus livros, intitulado Das Doenças.
Este homem tinha o coração no lugar e bem o demonstrou quando o rei quis atraí-lo para junto de si, com muitas dádivas e oferendas; respondeu-lhe francamente que teria muitos escrúpulos em tratar e curar os bárbaros que queriam matar os gregos e de pôr a sua arte a serviço de um rei que pretendia escravizar a Grécia.
A carta que lhe mandou pode ainda hoje ver-se entre as suas outras obras e constituirá para todo o sempre uma prova do seu bom coração e de sua natureza nobre.
Com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a valentia.
As pessoas escravizadas não mostram no combate qualquer ousadia ou intrepidez.
Vão para o castigo como que manietadas e entorpecidas, como quem vai cumprir uma obrigação.
E não sentem arder no coração o fogo da liberdade que faz desprezar o perigo e dá ganas de comprar com a morte, ao lado dos companheiros, a honra da glória.
Entre homens livres, todos disputam invejosamente quem há de ser o primeiro a servir o bem comum; todos desejam ter o seu quinhão no mal da derrota ou no bem da vitória. Mas as pessoas escravizadas, além desta falta de valor na guerra, perdem também a energia em todo o resto, têm o coração abatido e mole e não são capazes de grandes ações.
Os tiranos o sabem e, à vista deste vício, tudo fazem para piorá-lo.
Xenofonte, historiador grave e da melhor cepa entre os gregos, em um livro fez Simônides falar com Hierão, rei de Siracusa, sobre as misérias dos tiranos.
É um livro eivado de bons costumes e graves argumentos e, a meu ver, escrito com muita graça. Bom seria que todos os tiranos que já houve pusessem diante dos olhos e dele se servissem como de um espelho.
Não creio que deixassem de ver nele todas as suas verrugas e não se envergonhassem de todas as suas manchas.
Conta no referido tratado o tormento por que passam os tiranos que, por fazerem mal a todos, a todos devem temer.
Diz entre outras coisas que os maus reis recorrem a estrangeiros para fazerem a guerra, subornam-nos e não se atrevem a meter armas nas mãos dos próprios súditos a quem ofenderam.
Reis houve, alguns até franceses, mais outrora do que nos dias de hoje, que contrataram para a guerra mais de uma nação estrangeira, com intenção de preservarem os seus, por acharem que não era perdido o dinheiro gasto em defesa das pessoas.
Era o que dizia Cipião (o grande Africano, julgo) para quem valia mais defender a vida de um cidadão do que desbaratar cem inimigos.
Mas não há dúvida alguma de que o tirano se julga absolutamente seguro e só se preocupa quando percebe que já não tem a seu serviço um único homem de valor.
Com razão se lhe poderá dizer nessa altura o que Trasão, em Terêncio, se gloria de ter dito ao domador de elefantes:

Tão bravo vos hei mostrado
Que sois das bestas criado.

Mas esse estratagema com que os tiranos humilham os súditos está, mais do que em qualquer outro lado, explicitado no que Ciro fez aos lídios, depois de se ter apoderado de Sardes, capital da Lídia, quando aprisionou o riquíssimo rei Creso e o levou cativo. Trouxeram-lhe a notícia de que os de Sardes se tinham revoltado. Ter-lhe-ia sido fácil dominá-los.
Não desejando saquear uma tão bela cidade nem querendo destacar para lá um exército que a vigiasse, recorreu a um outro expediente. Fundou nela bordéis, tabernas e jogos públicos e publicou um decreto que obrigava os habitantes a freqüentá-los.
Tão bons resultados teve esta guarnição que foi desnecessário daí em diante levantar a espada contra os lídios. Os desgraçados divertiram-se a inventar toda a casta de jogos, de tal forma que a palavra latina usada para significar “passatempos” é a palavra “ludi”, que vem de “Lydi”, lídios.
Nem todos os tiranos foram tão explícitos no seu desejo de efeminarem os homens, mas o que este ordenou formalmente foi, em grande parte, realizado de forma velada.
É muito próprio do vulgo, mormente o que pulula nas cidades, desconfiar de quem o estima e ser ingênuo para com aqueles que o enganam.
Atrair o pássaro com o apito ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante.
É espantoso como eles se deixam levar pelas cócegas.
Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania.
Deste meio, desta prática, destes engodos se serviam os tiranos para manterem os antigos súditos sob o jugo. Os povos, assim ludibriados, achavam bonitos estes passatempos, divertiam-se com o vão prazer que lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade igual, se bem que mais nociva, à das crianças que aprendem a ler atraídas pelas figuras coloridas dos livros iluminados.
Os tiranos romanos decretaram também na celebração freqüente das decenálias públicas, para as quais atraiam a canalha que põe acima de tudo os prazeres da boca.
Nem o mais esclarecido de todos eles trocaria a malga da sopa pela liberdade da república de Platão.
Os tiranos ofereciam o quarto de trigo, o sesteiro de vinho e o sestércio. E os vivas ao rei eram então coisa triste de ouvir.
Não davam conta, os néscios, de que recuperavam dessa forma parte do que era seu e que não podia o tirano dar-lhes coisa que não lhes tivesse furtado antes.
O que hoje ganhava o sestércio, o que se fartava de comer no festim público, louvando a grande liberalidade de Tibério e Nero, era no dia seguinte obrigado a entregar os seus haveres à avareza, os filhos da luxúria e o próprio sangue à crueldade daqueles magníficos imperadores, e fazia-o sem dizer palavra, mudo como uma pedra, quedo como um cepo.
O povo sempre foi assim.
É perante o prazer que honestamente não pode atingir, aberto e dissoluto e, face ao agravo e à dor que honestamente não deveria sofrer, insensível.
Não sei hoje em dia de pessoa alguma que, ao ouvir falar de Nero, não trema só com o nome de tão vil monstro, de tão hedionda e imunda besta. Pode, porém, dizer-se que após a sua morte, vil tanto quanto foi a sua vida, o povo romano ficou com tanta pena (por se lembrar dos seus jogos e festins) que pouco faltou para vestir luto. Assim o escreveu Cornélio Tácito, autor dos melhores e mais graves, e só pode estranhar o fato quem não conheça bem o que o povo fez após a morte de Júlio César, que tinha abolido as leis e a liberdade.
Achavam que era um homem sem valor (creio), mas louvaram muito a sua humanidade que afinal foi tão nociva como a crueldade mais selvagem de todos os tiranos.
Em boa verdade, a sua peçonhenta doçura serviu só para adoçar a servidão que impôs ao povo romano.
Mas, depois de morto, o dito povo, que tinha ainda na boca o sabor dos banquetes e a recordação das suas prodigalidades, queimou, para honrá-lo e incinerá-lo, todos os bancos da praça, edificou-lhe uma coluna, como a um verdadeiro pai do povo (assim rezava a inscrição no capitel), e prestou-lhe mais honrarias, após a morte, do que a qualquer outro homem, à exceção talvez dos que o mataram.
Os imperadores romanos não deixavam de tomar sempre o título de tribuno do povo, seja porque seu cargo era tido na conta de santo e sagrado, seja porque havia sido estabelecido para se defenderem do povo e estarem sob o favor do estado.
Deste modo tinham por certo que o povo lhes daria toda a confiança, tendo em maior consideração o título do que os atos deles.
Não procedem melhor hoje em dia os que sempre que cometem aleivosias, incluindo as mais graves, fazem-nas acompanhar de discursos sobre o bem comum e a utilidade pública.
Não ignoras, Longa, os considerandos de que habilmente eles costumam lançar mão. Mas na maioria das vezes não há habilidade que chegue para cobrir tanto despudor.
Os reis assírios, e depois deles os medos, só apareciam em público o mais tarde possível, ao anoitecer, para a populaça julgar que eles tinham algo de sobre-humano, assim iludindo as gentes propensas ao devaneio e amigas de imaginar aquilo que não vêem claramente visto.
Foi assim que as nações que durante longos anos pertenceram ao império sírio se habituaram, com tal mistério, a servir e serviam tanto mais quanto não sabiam quem era o soberano; e todos o respeitavam e temiam, sem nenhum deles o ter visto.
Os primeiros reis do Egito, esses nunca se mostravam em público sem levarem um ramo ou uma luz na cabeça e mascaravam-se como saltimbancos, coisa tão estranha de ver que os súditos se enchiam de respeito e veneração por eles; e havia gente tão doida e tão submissa que se prestava a tal comédia em vez de com ela se rir. Faz pena ouvir comentar as artimanhas a que os tiranos de antigamente recorriam para consolidarem as suas tiranias e o modo como de coisas somenos tiravam grande partido.
Tinham compreendido ser possível fazerem o que quisessem de um povo que se deixava apanhar na rede, por muito frágil que ela fosse, um povo tão fácil de enganar e submeter que quanto mais dele zombavam mais se rebaixava.
E que direi daquela outra patranha a que os povos antigos sempre deram grande crédito? Acreditaram, de fato, que o dedo grande do pé de Pirro, rei dos epirotas, fazia milagres e curava as doenças do baço.
Acreditavam na lenda de que o dito dedo, após a cremação do corpo de Pirro, ficaria inteiro no meio das cinzas.
Era o próprio povo que forjava as mentiras em que posteriormente acreditava. Muitos assim o escreveram e, pelo modo como o fizeram, é patente que se limitaram a reunir o que ouviam dizer nas cidades entre o povo miúdo.
Vespasiano, no regresso da Assíria, passando por Alexandria a caminho de Roma, tomar o governo do Império, teria realizado muitos milagres.
Punha os coxos a andar, dava vista aos cegos e obrava muitas outras façanhas em que só podia acreditar quem fosse mais cego do que aqueles a quem pretensamente curava.
Até os mesmos tiranos se espantavam com a forma como os homens podem suportar um homem que lhes faz mal; utilizavam por isso o disfarce da religião e, se possível, tomavam o aspecto de certas divindades, disso se servindo para protegerem a má vida que levavam.
Se dermos credo à Sibila de Virgílio e à sua descrição do inferno, Salmoneu, por ter zombado dos deuses e vestido a indumentária de Júpiter, está agora no fundo do inferno a receber o castigo que merece:

… As penas vi cruéis e penetrantes
De Salmoneu soberbo, que tanto erra,
De Júpiter Tonante o raio horrendo
E do Olimpo os trovões contrafazendo.

De quatro frisões este conduzido
Uma tocha acendida meneando,
Pelos povos de Grécia ia atrevido,
E pelo meio de Elides triunfando.
O culto aos altos deuses só devido
Pedia: mentecapto, que rodando
Pela ponte no coche miserável,
Fingia a chuva e o raio imitável.

Mas de uma nuvem densa um raio horrendo,

Vibrando irado, o padre onipotente
O derrubou com ímpeto tremendo,
Não com fumoso raio ou tocha ardente…
[Eneida, Virgílio, Cap. VI]

Se este, cujo crime foi fazer de tolo, padece hoje tais tormentos no inferno, é de crer que merecem muito pior os que abusaram da religião para fins ruins.
Os nossos semearam pela França sapos, flores de lis, a ampola e a oriflama. Pela parte que mais me cabe, não ponho em dúvida que os nossos maiores e nós não temos razão de queixa, pois sempre tivemos reis bons em tempo de paz, valorosos na guerra, reis que, embora sendo-o de nascença, parecem ter sido não criados pela natureza, como os outros, mas eleitos por Deus Todo-poderoso, antes de tomarem nas mãos as rédeas do governo e a guarda do reino.
Ainda que assim não fosse, não poria em dúvida a verdade contada pelas nossas histórias, nem as discutiria com vistas a rebaixar a nossa bela nação e deslustrar a nossa poesia francesa, a qual, mais do que remoçada, está hoje completamente renovada graças aos nossos Ronsard, Baïf e Du Bellay, que fizeram evoluir a nossa língua a pontos (ouso esperá-lo) de os gregos e latinos não serem em nada superiores, a não ser quiçá no direito de antiguidade.
E seria da minha parte grande ofensa à nossa métrica (uso de boa mente a palavra e não me desagrada) que, tornada embora por muitos mecânica, tem muita gente capaz de enobrecê-la e de restituí-la à sua honra primitiva, seria, digo, grande ofensa, subtrair-lhe os belos contos do rei Clóvis, nos quais julgo ver despontar fácil e elegantemente a veia do nosso Ronsard e da sua Francíada. Pressinto o seu alcance, reconheço-lhe a graça e finura de espírito. Tem arte para fazer da oriflama o que os romanos fizeram das ancilas, como diz Virgílio: “E os escudos do céu jazendo em terra”. Erguerá a nossa ampola tanto quanto os atenienses o cesto de Eríctono; e as nossas armas serão faladas tanto quanto o foi a oliveira que ainda hoje se encontra na torre de Minerva. Seria de fato ultrajante renegar os nossos livros e desdizer os nossos poetas.
Mas voltando ao assunto de que sem querer me afastei, quem mais do que os tiranos tem conseguido para sua segurança, habituar o povo não só à obediência e à servidão, mas até à devoção? Tudo, pois, o que até aqui disse sobre o hábito de as pessoas serem voluntariamente escravas aplica-se apenas às relações entre os tiranos e a arraia miúda e embrutecida.
Passarei agora a um ponto que, a meu ver, constitui o segredo e a mola da dominação: o apoio e o alicerce da tirania.
Quem pensar que as alabardas dos guardas e das sentinelas protegem o tirano, está, na minha opinião, muito enganado; usam-nos, creio, mais por formalidade e como espantalho do que por lhes merecerem a confiança.
Os arqueiros vedam a entrada no paço aos pouco hábeis, aos que não têm meios, não aos bem armados e aos façanhudos.
Dos imperadores romanos se pode dizer que foram menos os que escaparam de qualquer perigo por intervenção dos arqueiros do que os que pelos próprios guardas foram mortos.
Não são as hordas de soldados a cavalo, não são as companhias de soldados peões, não são as armas que defendem o tirano.
Parece à primeira vista incrível, mas é a verdade. São sempre quatro ou cinco os que estão no segredo do tirano, são esses quatro ou cinco que sujeitam o povo à servidão.
Sempre foi a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram sempre esses os que lograram aproximar-se dele ou ser por ele convocados, para serem cúmplices das suas crueldades, companheiros dos seus prazeres, alcoviteiros suas lascívias e com ele beneficiários das rapinas. Tal é a influência deles sobre o caudilho que o povo tem de sofrer não só a maldade dele como também a deles. Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos que procedem com eles como eles procedem com o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil devidamente ensinados a quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do dinheiro, para que eles ocultem as suas avarezas e crueldades, para serem seus executores no momento combinado e praticarem tais malefícios que só à sombra deles podem sobreviver e não cair sob a alçada da lei e da justiça. E abaixo de todos estes vêm outros.
Quem queira perder tempo a desenredar esta complexa meada descobrirá abaixo dos tais seis mil mais cem mil ou cem milhões agarrados à corda do tirano; tal como em Homero Júpiter se gloria de que, puxando a corda, todos os deuses virão atrás.
Tal cadeia está na origem do crescimento do Senado no tempo de Júlio, do estabelecimento de novos cargos e das eleições de ofícios, que não são de modo algum uma reforma na justiça, mas novo apoio à tirania.
E, pelos favores, ganhos e lucros que os tiranos concedem chega-se a isto: são quase tantas pessoas a quem a tirania parece proveitosa como as que prezam a liberdade.
Dizem os médicos que, havendo no nosso corpo uma parte afetada, é nela que naturalmente se reúnem os humores malignos; da mesma forma, quando um rei se declara tirano, tudo quanto é mau, a escória do reino (não me refiro aos larápios e outros desorelhados que no conjunto da república não fazem bem ou mal algum), os que são ambiciosos e avarentos, todos se juntam à volta dele para apoiarem-no, para participarem do saque e serem outros tantos tiranetes logo abaixo do tirano.
É o caso dos grandes ladrões e corsários famosos. Há uns que exploram o país e assaltam os viajantes; estão uns de emboscada e outros à espreita; uns chacinam, outros saqueiam e, havendo muito embora alguns mais proeminentes, uns que são criados e outros chefes de bando, todos afinal se sentem donos, senão do espólio principal, pelo menos de parte dele.
Conta-se que os piratas sicilianos não só se juntaram em tão grande número que foi mister enviar contra eles Pompeu Magno, como também conseguiram estabelecer alianças com algumas belas cidades e grandes praças fortes em cujos portos ancoravam com toda a segurança, no regresso do corso, dando-lhes em recompensa uma parte dos bens que rapinavam.
O tirano submete a uns por intermédio dos outros.
É assim protegido por aqueles que, se algo valessem, antes devia recear, e dá razão ao adágio que diz ser a lenha rachada com cunhas feitas da mesma lenha.
Vejam-se os arqueiros, os guardas e porta-estandartes que do tirano recebem não poucos agravos.
Mas os desgraçados, banidos por Deus e pelos homens, suportam de boa mente o mal e descarregam depois esse mal não naquele que os maltrata, mas nos que são como ele maltratados e não têm defesa.
À vista dos que servilmente giram em redor do tirano, a executar as suas tiranias e a oprimir o povo, fico muitas vezes espantado com a maldade deles e sinto igualmente pena de tanta estupidez.
Porque, em boa verdade, o que fazem eles, ao acercarem-se do tirano, senão afastarem-se da liberdade, darem (por assim dizer) ambas as mãos à servidão e abraçarem a escravatura?
Ponham eles algum freio à ambição, renunciem um pouco à avareza, olhem depois para si próprios, vejam-se bem e perceberão claramente que os camponeses, os servos que eles espezinham e tratam como escravos são em comparação com eles, livres e felizes.
O camponês e o artesão, embora servos, limitam-se a fazer o que lhes mandam e, feito isso, ficam quites.
Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos.
Não basta que lhe obedeçam, têm de lhe fazer todas as vontades, têm de se matar de trabalhar nos negócios dele, de ter os gostos que ele tem, de renunciar à sua própria pessoa e de se despojar do que a natureza lhes deu.
Têm de se acautelar com o que dizem, com as mínimas palavras, os mínimos gestos, com o modo como olham; não têm olhos, nem pés, nem mãos, têm de consagrar tudo ao trabalho de espiar a vontade e descobrir os pensamentos do tirano.
Será isto viver feliz? Será isto vida? Haverá no mundo coisa mais insuportável do que isto? Não me refiro sequer a homens bem nascidos, mas sim a quem tenha o sentido do bem comum ou, para mais não dizer, cara de homem. Haverá condição mais miserável do que viver assim, sem ter nada de seu, sujeitando a outrem a liberdade, o corpo, a vida?
Fazem tudo o que fazem para ganharem fortuna…
Como se pudessem ganhar alguma coisa de seu, quando da sua própria pessoa não podem dizer que seja sua.
Como se fosse possível, na presença do tirano, alguém possuir o que quer que seja, eles fazem tudo para acumularem riquezas e não se lembram de que são eles que lhe dão a força para roubar tudo a todos, não deixando a ninguém nada de seu.
Vêem que é o ter que mais sujeita os homens à crueldade, que não há para o tirano crime mais digno de morte do que a posse de quaisquer bens; que ele só quer possuir riquezas, que rouba aos ricos que se apresentam diante dele como num matadouro, para que ele os veja bem recheados e ornados e deles tenha inveja.
Estes favoritos deveriam lembrar-se menos dos poucos que no convívio com o tirano ganharam fortunas do que dos muitos que, tendo acumulado assim alguns haveres, acabaram por perder os bens e a vida.
Bom será pensar que, se alguns poucos ganharam riquezas, pouquíssimos foram os que as conservaram.
Percorreram-se as histórias antigas, pense-se nas de fresca data e se verá claramente quão grande é o número dos que, ganhando as boas graças dos príncipes com falsidades e tendo recorrido à maldade ou abusado da simplicidade deles, acabaram por ser aniquilados pelos mesmos príncipes, os quais, tão facilmente quanto os tinham elevado, viram que não podiam conservá-los.
Entre o grande número de pessoas que algum dia viveram nas cortes dos maus reis, poucos ou nenhum escaparam de sentir em si a crueldade do tirano a quem tinham acirrado contra os outros.
Tendo o mais das vezes enriquecido, à custa da proteção deles, com os despojos dos outros, foram eles que depois enriqueceram os outros com seus próprios despojos.
As próprias pessoas de bem, se acaso as há ao redor do tirano e gozam das suas graças, enquanto nelas brilha a virtude e a integridade, que, vistas de perto, até aos maus inspiram respeito, essas pessoas de bem não ficarão muito tempo sem perceber o mal que os outros sofrem e aprenderão às suas custas os malefícios da tirania.
Sêneca, Burro, Trázeas, esse trio de pessoas de bem que tiveram a pouca sorte de viver perto do tirano e a missão de tratar dos seus negócios, foram todos por ele estimados e benquistos; um deles fora seu preceptor e tinha como penhor da amizade e educação que lhe dera; ora todos eles testemunharam pela sua morte cruel quão pouca confiança merecem os tiranos.
Que amizade, afinal, pode esperar-se daquele cujo coração é tão duro que odeia o próprio reino que em tudo lhe obedece? Que, por não conseguir fazer-se amar, se empobrece e destrói seu império?
Poderá dizer-se que todos os que referi, incorreram em grandes desgraças, por terem sido virtuosos; mas olhemos também para o resto do séqüito do tirano e veremos que todos quantos obtiveram os seus favores e os mantiveram por maldade acabaram por não durar muito.
Onde se ouviu falar de amor mais dedicado, de afeto mais duradouro, onde é que já se viu homem mais obstinadamente preso a uma mulher do que ele estava a Pompéia, a quem afinal envenenou?
Agripina, mãe de Nero, matara o marido Cláudio para por o filho no trono. Fez-lhe todas as vontades, não se poupou a trabalhos para lhe agradar. Ora foi esse mesmo filho por ela gerado e feito imperador, foi ele que, depois de muitas vezes, debalde, o tentar, acabou por lhe tirar a vida; e ninguém depois diria que ela não mereceu esse castigo, mas a opinião geral é que devia tê-lo recebido das mãos de outrem e não daquele que lho infligiu.
Onde houve já homem mais fácil de manobrar, mais simples, digamos até mais ingênuo do que o Imperador Cláudio? Quem se apaixonou algum dia por uma mulher mais do que ele por Messalina? Nem por isso deixou de entregá-la ao carrasco. A simplicidade é uma crueldade de todos os tiranos: tanto que todos ignoram o que seja praticar o bem. Mas, não sei como, chega sempre o dia em que usam de crueldade para com os que os rodeiam e a pouca inteligência que possuem desperta de imediato.
É bem conhecida a palavra daquele que, vendo a descoberto o colo da mulher amada, sem a qual parecia não poder viver, a acariciou, dizendo: este belo pescoço, logo que eu o ordene, pode ser cortado.
Por isso é que a maior parte dos antigos tiranos eram geralmente mortos pelos seus favoritos, os quais, uma vez conhecida a natureza da tirania, perdiam toda a fé na vontade do tirano e desconfiavam do seu poder.
Assim foi que Domiciano morreu às mãos de Estevão, Cômodo assassinado por uma das suas amantes, Antonino por Macrino, e o mesmo aconteceu com quase todos os outros.
A verdade é que o tirano nunca é amado nem ama.
A amizade é uma palavra sagrada, é uma coisa santa e só pode existir entre pessoas de bem, só se mantém quando há estima mútua; conserva-se não tanto pelos benefícios quanto por uma vida de bondade.
O que dá ao amigo a certeza de contar com o amigo é o conhecimento que tem da sua integridade, a forma como corresponde à sua amizade, o seu bom feitio, a fé e a constância.
Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apóiam-se uns aos outros, mas temem-se reciprocamente. Não são amigos, são cúmplices.
Ainda que assim não fosse, havia de ser sempre difícil achar num tirano um amor firme. É que, estando ele acima de todos e não tendo companheiros, situa-se para lá de todas as raias da amizade, a qual tem seu alvo na equidade, não aceita a superioridade, antes quer que todos sejam iguais.
Por isso é que entre os ladrões reina a maior confiança, no dividir do que roubaram; todos são pares e companheiros e, se não se amam, temem-se pelo menos uns aos outros e não querem, desunindo-se, tornar-se mais fracos.
Quanto ao tirano, nem os próprios favoritos podem ter confiança nele, pois aprenderam por si que ele pode tudo, que não há direitos nem deveres a que esteja obrigado, a sua única lei é a sua vontade, não é companheiro de ninguém, antes é senhor de todos. Quão dignos de piedade, portanto, são aqueles que, perante exemplos tão evidentes, face a um perigo tão iminente, não aprendem com o que outros já sofreram!
Como pode haver tanta gente que gosta de conviver com os tiranos e que nem um só tenha inteligência e ousadia que bastem para lhes dizer o que (no dizer do conto) a raposa respondeu ao leão que se fingia doente: “De boa mente entraria no teu covil; mas só vejo pegadas de bichos que entram e nenhuma dos que dele tenham saído”.
Esses desgraçados só vêem o brilho dos tesouros do tirano e ficam olhando espantados para o fulgor das suas suntuosidades, deslumbrados com tanto esplendor; aproximam-se e não vêem que estão a atirar-se para o meio de uma fogueira que não tardará a consumi-los. O Sátiro indiscreto (reza a fábula), ao ver aceso o lume descoberto por Prometeu, achou-o tão belo que foi beijá-lo e se queimou.
A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar (diz o poeta lucano).
Vamos admitir que os favoritos consigam escapar às mãos daqueles a quem servem. Não escaparão do rei que vier depois. Se for bom, tudo fará para pedir contas e repor a justiça. Se for mau e semelhante ao que eles serviram, há de ter os seus favoritos que, evidentemente, além de pretenderem ocupar o lugar dos outros, hão de querer também os bens e as vidas deles.
Assim sendo, como pode haver alguém que, no meio de tantos perigos, de tanta insegurança, queira ocupar tão desgraçada posição e servir com tal risco tão perigoso amo?
Que tormento, que martírio este, Deus meu: viver dia e noite a pensar em ser agradável a alguém e, ao mesmo tempo, temê-lo mais do que a qualquer homem!
Que tormento estar sempre de olho à espreita, de ouvido a escuta, a espiar de onde virá o golpe, para descobrir embustes, examinando sempre as feições dos companheiros, a ver se descobre quem o trai, rindo-se para todos, receando-os a todos, não tendo inimigo declarado nem amigo certo!
Que tormento fazer sempre rosto risonho, tendo o coração transido, não poder mostrar-se contente e não se atrever a ser triste!
Aprazível é considerar o que eles ganham com tanto tormento, o que podem esperar dos trabalhos que passam e da mísera vida que levam.
O povo gosta de acusar dos males que sofre não o tirano, mas os que o aconselham: os povos, as nações, toda a gente, incluindo os camponeses e os lavradores, todos sabem os nomes deles e os respectivos vícios; sobre eles lançam mil ultrajes, mil vilanias, mil maldições. Todas as suas orações e votos são contra eles. Todas as desgraças, todas as pestes, todas as fomes lhes são atribuídas e, se às vezes, exteriormente, lhes tributam algum respeito, não deixam de amaldiçoá-lo no mais fundo do coração, têm por eles um horror maior do que têm aos animais ferozes.
Tal é a honra, tal é a glória que recebem em paga dos serviços que prestam aos povos, os quais nunca se darão por saciados e compensados do que sofreram, ainda que por eles repartissem o corpo em pedaços.
Mesmo depois de morrerem, os que ficam tudo farão para que o nome de Come-Gente lhes seja atribuído e manchado pela tinta de mil penas, e a sua reputação desfeita em milhares de livros, e os próprios ossos, a bem dizer, pisados pelos vindouros que assim castigam depois de mortos os que tiveram vida ruim.
Aprendamos com estes exemplos, aprendamos a fazer o bem.
Ergamos os olhos para o Céu, seja por amor da nossa honra, seja pelo amor da própria virtude, olhemos para Deus Todo-poderoso, testemunha certa de nossos atos e justo juiz de nossas faltas.
De minha parte, penso, e não me engano, que nada há de mais contrário a um Deus liberal e bondoso, do que a tirania e que ele reserva aos tiranos e seus cúmplices um castigo especial.

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Temas de inspiração em trechos do livro:

Índice

(Clique para acessar diretamente)

NATUREZARELIGIÃOTEOLOGIAECOLOGIA/ECONOMIADIREITO,

AMBIENTALISMOÉTICAFILOSOFIASOCIOLOGIAANTROPOLOGIA,

FÍSICABIOLOGIAHISTÓRIAESPIRITOLOGIA

NATUREZA

pág. 45 a 48:

Na dimensão antropocêntrica, por exemplo, quando elaboramos uma norma de comportamento social temos a oportunidade e a possibilidade de contemplar a dimensão ecocêntrica ou ignorá-la e observar apenas uma causa própria da espécie isoladamente.

O fato de escolhermos a segunda opção constitui-se num grande equívoco, pois implica na melhor das hipóteses em obtenção de alguma ordem relativa, o que significa dizer, genericamente, desordem, uma vez que a espécie componente da segunda hipótese representa apenas uma pequena parcela do todo.

Por tudo o que foi dito anteriormente não se pode ignorar que o homem seja parte integrante do universo que o compõe e é por ele composto. A menor área de influência possível de se enfocar neste caso é o ser e seu meio ambiente, ou seja, no mínimo a terra, seu pluralismo de seres e o sistema solar, pois dele dependemos e este nos afeta imediatamente.

Assim, mesmo que queiramos nos privilegiar em detrimento de tudo o mais nós não podemos, pois por força de lei, somos e, mais do que nunca, estamos adstritos a termos de contemplar a perspectiva ecocêntrica. É a nossa única alternativa amplamente consciente, mesmo que o canhestro fim almejado seja apenas, egoisticamente, a preservação da nossa espécie.

É inevitável, não existe separação de fato, pois, sob esta ótica ampliada, se quisermos ser antropocêntricos teremos de ser necessariamente ecocêntricos.

Não podemos continuar extinguindo os elementos que compõem a estrutura da vida no planeta sob a certeza de chegarmos à ruína absoluta.

Admitindo-se a hipótese de eu não ter sido suficientemente claro, convincente e didático, para melhor compreensão do que pretendo dizer, a partir deste ponto, é importante uma exposição da Teoria Gaia.

“James Lovelock fez uma descoberta iluminadora que o levou a formular um modelo que é, talvez, a mais surpreendente e mais bela expressão de auto-organização – a idéia de que o planeta Terra como um todo é um sistema vivo, auto-organizador. (…)

O processo de auto regulação é a chave da idéia de Lovelock. Ele sabia, pela astrofísica, que o calor do sol aumentou em 25 por cento desde que a vida começou na Terra e que, não obstante esse aumento, a temperatura da superfície da Terra tem permanecido constante, num nível confortável para a vida, nesses quatro bilhões de anos. E se a Terra fosse capaz de regular sua temperatura, indagou ele, assim como outras condições planetárias – a composição de sua atmosfera, a salinidade de seus oceanos, e assim por diante – assim como os organismos vivos são capazes de auto-regular e de manter constantes a temperatura de seus corpos e também outras variáveis? Lovelock compreendeu que essa hipótese significava uma ruptura radical com a ciência convencional. (…)

Nessa época Lovelock não tinha idéia de como a terra poderia regular sua temperatura e a composição de sua atmosfera: (…) No entanto, ao mesmo tempo, a microbiologista norte-americana Lynn Margulis estava estudando os processos que Lovelock precisava entender – a produção e a remoção de gases por vários organismos, incluindo especialmente as miríades de bactérias presentes no solo da Terra. (…) Logo depois, vários colegas dela recomendaram que conversasse com James Lovelock, o que levou a uma longa e proveitosa colaboração, a qual resultou na hipótese Gaia plenamente científica. (…)

O aspecto de destaque desses laços de realimentação está no fato de que ligam conjuntamente sistemas vivos e não vivos. Não podemos mais pensar nas rochas, nos animais e plantas como estando separados uns dos outros. A teoria de Gaia mostra que há um estreito entrosamento entre as partes vivas do planeta – plantas, micro-organismos e animais – e suas partes não vivas – rochas, oceanos e a atmosfera.

(…) Os vulcões da Terra tem vomitado enormes quantidades de dióxido de carbono (CO2) durante milhões de anos. Uma vez que CO2 é um dos principais gases de estufa, Gaia precisa bombeá-lo para fora da atmosfera; caso contrário, ficaria quente demais para a vida. Plantas e animais reciclam grandes quantidades de CO2 e de oxigênio nos processos de fotossíntese, da respiração e da decomposição. No entanto essas trocas estão sempre em equilíbrio e não afetam o nível de CO2 da atmosfera. (…)

No processo de erosão das rochas, estas combinam-se com a água da chuva e com o dióxido de carbono para formar várias substâncias químicas denominadas carbonatos. O CO2 é então retirado da atmosfera e retido em soluções líquidas. (…) Lovelock e outros descobriram que a presença de bactérias no solo aumenta enormemente a taxa de erosão das rochas. (…)

Os carbonatos são então arrastados para o oceano, onde minúsculas algas, invisíveis a olho nu, os absorvem e os utilizam para fabricar primorosas conchas calcárias (de carbonato de cálcio). Desse modo, o CO2 que estava na atmosfera vai parar nas conchas dessas algas diminutas (…). Além disso, as algas oceânicas também absorvem dióxido de carbono diretamente do ar.

Quando as algas morrem, suas conchas se precipitam para o fundo do mar, onde formam compactos sedimentos de pedra calcária. (…) Devido ao seu enorme peso, os sedimentos de pedra calcária gradualmente afundam no manto da terra e se fundem, podendo até mesmo desencadear os movimentos das placas tectônicas. Por fim, parte do CO2 contido nas rochas fundidas é novamente vomitado para fora por vulcões, e enviado para uma outra rodada do grande ciclo de Gaia.”

Sob esta perspectiva impõe-se a revisão e substituição dos velhos paradigmas que orientaram nossa espécie até então.

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RELIGIÃO

pág. 38 a 42 :

Na Bíblia a eternidade se retira, a natureza se corrompe e decai. Segundo o pensamento bíblico o homem depois da expulsão do Paraíso vive seu exílio. Mitologicamente, está criada aí a oposição do homem em face da natureza.

Não vai longe o tempo em que os homens se vangloriavam de suas caçadas e da derrubada de grandes árvores. Ainda hoje se fazem heróis entre os que disputam com a natureza as escaladas de picos nevados, as travessias de canais a nado, as expedições solitárias em meio aos oceanos, continentes gelados, etc..

“No início, Deus era apenas o mais poderoso entre vários deuses. Era apenas um Deus tribal, circunscrito. Então, no século VI, quando os judeus estavam na Babilônia, foi introduzida a noção de um Salvador do mundo, e a divindade bíblica migrou para uma nova dimensão. (…) No tempo do Velho Testamento, o mundo era um pequeno bolo de três camadas, que consistia de algumas centenas de milhas em torno dos centros do Oriente Próximo. Ninguém tinha ouvido falar dos astecas ou dos chineses (…). Na comunidade hebraica, o culto a Jeová foi um movimento específico que finalmente prevaleceu. Foi o esforço decisivo de um certo deus da periferia do templo contra o culto da natureza, que era celebrado por toda a parte.

E essa investida imperialista de um certo segmento da cultura se prolongou no Ocidente. Mas agora ela precisa abrir-se à natureza das coisas. Se for capaz de abrir-se, terá aí todas as possibilidades.” (grifo nosso)

A adoção desse velho paradigma dando a ideia de que o homem em sociedade se bastaria, além de servir para iludi-lo, desonerando-o ante a constatação do deserto criado por toda parte onde se instalava e passava, evidentemente inspirou a criação de normas de comportamento social fundadas nessa pseudo verdade. A partir de então a ideia foi propagada por toda a sociedade Ocidental que passou a ser estruturada segundo tal modelo.

Esse modelo é a pedra fundamental dos sistemas jurídicos contemporâneos, que privilegiam esta sociedade estritamente antropocentrista em detrimento de tudo o mais. Os direitos surgem como que das cartolas dos mágicos, apenas partindo-se da falsa premissa que afirma ser o homem dotado de excepcionais virtudes que alguns outros, animais, vegetais e minerais não têm. Nesta fórmula entram ainda componentes étnicos.

Desde então, todas as atrocidades e genocídios perpetrados por exércitos imperialistas são sempre acompanhados da mesma justificativa: “a salvação do mundo”, em outras palavras ou, modernamente, “a paz mundial”.

“No todo, a tradição judaico/cristã, que informa boa parte de nossa consciência cultural e de nós mesmos no Ocidente, colocou o homem numa categoria à parte como algo único neste mundo, com certeza, e possivelmente também no Universo como um todo. Segundo essa tradição, Deus fez todas as criaturas segundo sua própria espécie, mas fez o homem è Sua própria imagem e lhe deu domínio sobre a terra. O homem deveu sua colocação especial não a seu corpo, que era feito de mero “barro”, mas ao fato dele possuir uma alma – em tempos modernos, uma consciência – que de alguma forma espelhava a do Divino Ser. Em termos filosóficos modernos tudo isso foi esclarecido e transmitido a nós no dualismo mente-corpo de Descartes, na divisão da realidade em substâncias pensantes (res cogita) e substâncias puramente mecânicas estendidas no espaço (res extensa).

Tendo-se fé numa deidade transcendente, pouco importa que a alma, ou a consciência, do homem possua escassa relação com as outras coisas desse mundo. Unidos a Deus, que necessidade temos de comungar com as feras e as coisas?

Mas, com o advento da ciência moderna no século 17 e a retirada lenta mas inexorável da deidade transcendental das coisas, nossa consciência humana parecia não mais espelhar nada senão a si mesma. Sem o Deus cristão, sem a fé num reino transcendental da alma, e cego para a “alma” (consciência) das coisas e criaturas, o dualismo cartesiano ateu nos deixou de mãos vazias, exceto por um grosseiro materialismo. O senso de ser único por ter sido escolhido deu lugar ao sentido de alienação comum do século 20, pois somos diferentes de tudo à nossa volta e estamos inexoravelmente sós. (…) A visão de mundo cartesiana foi necessária ao cultivo da física de Newton e a todo o progresso tecnológico que seguiu em sua esteira, mas numa cultura pós-cristã ela é filosófica e espiritualmente estéril. Enquanto a alma do homem moderno clama por algo mais, (…) por algo além de nós mesmos, por uma sensação de estar em casa dentro do Universo, nossa razão também exige que compreendamos melhor nossa experiência. A consciência é um fato dessa experiência, e uma filosofia ou ciência que não consiga explicar a consciência está necessariamente incompleta. Isso tornou-se uma verdade familiar aos físicos, que vêm lutando para compreender os desenvolvimentos de seu próprio campo, mas ainda é necessário que ela se infiltre na visão dos intelectuais em geral. E se tanto o cristianismo como a ciência moderna pré-quântica estiverem errados? E se o homem não for um ser único? E se, afinal de contas, em algum grau partilhamos com outras coisas ou criaturas do Universo o fato de sermos conscientes? Fica impossível ignorar tais questões se levarmos em conta o conhecimento da moderna biologia, ou se levarmos as sugestões de filósofos e físicos como Alfred North Whitehead e David Bohm no sentido de que mesmo as partículas subatômicas talvez possuam propriedades rudimentares de consciência.

Será que nós, seres humanos, somos realmente diferentes de tudo o mais, como vem sustentando a tradição ocidental predominante, ou sob um aspecto importante será nossa consciência um contínuo com outras coisas do Universo? E, se for contínua, até que ponto se estende essa continuidade? A cães e gatos? Às amebas? Às pedras? Ou até elétrons? Já ao começar a pensar desta forma estamos experimentando uma boa mudança de paradigma.”

Nas palavras de Albert Einstein: “podemos então considerar a matéria como constituída por regiões do espaço nas quais o campo é extremamente intenso. (…) Não há lugar nesse novo tipo de Física para campo e matéria, pois o campo é a única realidade.”

Para Einstein e para a física quântica não existe divisão entre matéria e energia. As partículas são concentrações de energia que se condensam e solvem ciclicamente em ondas por razões ainda desconhecidas. O mais importante aspecto dessa descoberta, para este trabalho, é o destronamento dessa lógica bidimensional cartesiana e, também, a desmistificação da idéia de que o homem tenha sido o único ser criado por Deus à sua imagem e semelhança para ser o senhor da terra e do universo. Afinal, é possível que sejamos todos formados pela mesma energia original, que compartilhamos o mesmo campo com tudo que é – por nossa cultura – considerado inferior, como minerais, animais, vegetais e anjos, ou superior, como deuses, semideuses, santos, etc..

“A cooperação harmônica de todos os seres surgiu não das ordens de uma autoridade superior, exterior a eles próprios, mas do fato de que todos fazem parte de uma hierarquia de totalidades, compondo um padrão cósmico, e aquilo a que eles obedeciam eram os ditames internos de suas próprias naturezas.”

Eu e o Pai somos um”. Essas palavras de Jesus Cristo, por paradoxal que possa parecer, talvez queiram dizer exatamente o que acabo de sugerir no parágrafo anterior. Para que compreendamos, basta que admitamos que o “Pai”, o criador a que Jesus se refere, é exatamente essa energia, vácuo ou campo original já mencionada, componente universal de todos, de tudo e do nada, simultaneamente. Sim, pois, se o nada, o vácuo perfeito existe, mesmo que apenas conceitualmente, idealmente, tem a mesma origem de tudo o mais, logo, Deus é o tudo, mas para tanto tem ser também o nada!

“Todos os sistemas quânticos do universo, inclusive nós mesmos, estão entrelaçados (correlacionados e enredados) em alguma medida. Mesmo o vácuo quântico está repleto de correlações. Tal entrelaçamento básico é a essência da realidade quântica. Mas esses mesmo sistemas também têm potencial para mais entrelaçamentos, para mais e mais profundos relacionamentos, e esse potencial é um aspecto importante de uma psicologia baseada na natureza quântica da pessoa. Ele a dinamiza.”

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TEOLOGIA

: PÁG. 21 A 22

… Erwin Schroedinger, fundador da mecânica quântica, afirmou:

“Embora se configure inconcebível para a razão comum (…) você e todos os demais seres conscientes estão integrados reciprocamente. Portanto, esta sua vida atual não é meramente uma parte de toda a existência, senão que, em certo sentido, é o todo (…) Assim, você pode se lançar ao chão, espraiado na Mãe Terra, com a convicção de que você é uno com ela e ela contigo.”

Teillard de Chardin, paleontólogo jesuíta, estava absolutamente convencido pela ciência e pela filosofia que o universo é um todo indissociável.

“Quanto mais distante e profundamente penetramos na matéria, através de métodos progressivamente mais poderosos, mais somos confundidos pela interdependência de suas partes. Cada elemento do cosmos foi positivamente tecido por todos os demais (…) É impossível cortar esta teia para isolar uma parte sem que ela fique desemaranhada e rasgada em todas as suas extremidades.”

Quando todos nós soubermos viver conscientes de sermos partes intrínsecas do todo, a nova mitologia em formação no Ocidente, poderemos dizer que está instalado o novo paradigma e restabelecida a integridade ecológica.

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ECOLOGIA/ECONOMIA

: pág. 54 a 55:

… O mais interessante de toda esta lógica é que não precisamos, necessariamente, viver alienados do nosso cotidiano para contemplarmos a perspectiva ecocêntrica. Mesmo porque existe a possibilidade de, como simples agentes de transformação, sermos excluídos em curto ou médio prazo evolutivo, e, se for este o caso, o melhor que podemos fazer para ajudar é o que já estamos fazendo, trabalhando neste sentido!

Contrário senso, caso queiramos conservar, é preciso que apliquemos a regra básica de economia – vocábulo cujo significado etimologicamente falando, por incrível que hoje em dia possa parecer, é similar a ecologia. Refiro-me à lei do “mínimo esforço”, entenda-se o mínimo dispêndio de energia possível (para o máximo resultado). Para consegui-lo não precisamos sequer utilizar aquela inteligência que afirmamos ter superior à dos demais seres da natureza.

Em síntese, sabemos o que é preciso fazer para chegarmos àquela justiça holística. Basta que queiramos de fato – isto implica em certas renúncias – para conseguirmos.

Com a ilustração da capa tive a intenção de demonstrar que somos parte de um todo composto por milhões de espécies em um remoto planeta do sistema solar, situado na periferia da Via Láctea, entre milhões de galáxias no universo percebido por nós. Por mais que acreditemos que somos seres superdotados e maravilhosos, tudo não passa de mera questão de ponto de vista.

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DIREITO

pág. 13

… Cumpre esclarecer que ao afirmar ser o Direito um fenômeno emanado da natureza e não quero com isto dizer que podemos processar, segundo nossos costumes, cavalos, pedras, árvores, rios, peixes, galinhas, bactérias, etc ..

“E ainda na Idade Média era possível por uma ação contra um animal – contra um touro, por exemplo, que houvesse provocado a morte de um homem, ou contra os gafanhotos que tivessem aniquilado as colheitas. O animal processado era condenado na forma legal e enforcado, precisamente como se fosse um criminoso humano.”

O Direito, ao tempo em que é originalmente natural, é, também, eminentemente antropocêntrico e, consequentemente, cultural.

Sem dúvida, é importante sabermos distinguir se algo natural experimentou, ou não, interação humana. Porém, é certo que não podemos ignorar a presença de sua existência pia na dimensão original.

“Se se parte da distinção entre ciências da natureza e ciências sociais, por conseguinte, se distingue entre natureza e sociedade como objetos diferentes destes dois tipos de ciência, põe-se logo a questão de saber se a ciência jurídica é uma questão da natureza ou uma ciência social. Mas esta contraposição de natureza e sociedade não é possível sem mais, pois a sociedade, quando entendida como a real ou efetiva convivência entre homens pode ser pensada como parte da vida em geral e, portanto, como parte da natureza. Igualmente o direito – ou aquilo que primo conspecta se costuma designar como tal – parece, pelo menos quanto a uma parte do seu ser situar-se no domínio da natureza. Ter uma existência inteiramente natural.”

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AMBIENTALISMO

pág. 17 a 23:

… Imagino que nada seja mais adequado que iniciar este capítulo reproduzindo, desde logo, as palavras do doutor Benjamin:

“A proteção do meio ambiente, já vimos, teve, nos seus primórdios, como justificativa fundamental para sua configuração, a tutela do homem: protegia-se o ambiente porque tal significava, em última instância, assegurar a existência dos próprios indivíduos ou daquilo que lhes era muito caro, no sentido estético, turístico, paisagístico ou mesmo econômico. É a visão antropocêntrica que, não obstante a crítica bem fundamentada que enfrenta, ainda domina, internacional e nacionalmente, a legislação ambiental e doutrina especializada.

Mas ao lado dessa perspectiva, centralizada com exclusividade no homem, passou-se a justificar a proteção do ambiente também em razão de valor intrínseco manifestado pela natureza: protege o meio ambiente porque ele vale por si mesmo, independentemente de sua relevância sanitária ou posição estética, paisagística ou turística. É a perspectiva biocêntrica ou ecocêntrica.”

É animador imaginar que há no mundo uma vontade crescente de enfocar-se a questão ambiental sob a ótica ecocêntrica ou biocêntrica.

Estou certo de que certa transição está em curso e deve vir a acontecer mais dia, menos dia, assim como num ciclo da natureza que se completa dando origem a outro que já existia anteriormente e nunca ressurge igual.

Apesar de tudo vez ou outra eu me surpreendo com alguns questionamentos que ainda me assaltam, tais como: Será que mesmo que queira ser ecocêntrico, de qualquer maneira a análise ou o enfoque que venha do homem não terá seu ponto de vista contaminado pelo antropocentrismo?

Nossa limitação cultural nos dificultaria saber qual seria o ideal ecocêntrico?

Por outro lado, se somos parte de um mesmo “tecido sem costuras” será que podemos distinguir nossos interesses dos da natureza?

A propalada perspectiva ecocêntrica pode circunstancialmente não ser biocêntrica?

Em muitas outras oportunidades voltei a constatar que no mundo todo havia gente iluminada pensando de maneira parecida, afinal já era possível perceber que estávamos fazendo parte do que, em princípio, identifiquei como três correntes distintas. Eram compostas por cientistas jurídicos voltados para as chamadas ciências culturais; físicos e biólogos – voltados para as chamadas ciências naturais, estes aparentemente pareciam compor a comunidade mais visível da corrente, expostos à apreciação de todos com suas publicações. Finalmente, havia, também, uma parcela voltada para o esoterismo – chamado ingenuamente de ciências ocultas – que imagino permear as culturais e ser permeado pelas naturais, este um tanto quanto obscuro, menos visível, entretanto, igualmente voltado para o culto à natureza. Compreendi que, paradoxalmente, éramos uma só e a mesma corrente de pensamento.

Muitos com preconceito hão de torcer o nariz ate o que, eventualmente chamarão de promiscuidade pseudo científica, espúria mistura improvável – principalmente por causa da inclusão das ciências ocultas – mas, ao final, hão de compreender que de fato jamais houve qualquer divórcio verdadeiro entre as ciências, fossem quais fossem.

Fritjoff Capra, por exemplo, em “O Tao da Física” abre seu livro citando o antropólogo e místico Carlos Castañeda; logo a seguir Capra faz um estudo comparativo entre misticismo oriental e física moderna demonstrando que, cada um à sua maneira, fala da mesma unidade de todas as coisas, da importância de se superar o dualismo e a noção de tempo e espaço.

Isaac Newton, Carl G. Jung, Leonardo da Vinci, Paracelso, Thomas Edson, Francis Bacon, e Einstein, entre outros, eram cientistas e místicos ao mesmo tempo; este último tinha a “Doutrina Secreta” de H.P. Blavatsky como livro de cabeceira.

A cientista autora de “O Ser Quântico” assina Danah Zohar. O “Zöhar”, “luz”, “esplendor”, é uma coleção de escritos hebraicos esotéricos que vieram a lume por volta de 1305, graças a um erudito judeu espanhol, Moisés de León. Esse corpo tradicional de sabedoria, assim como as técnicas de sua utilização constitui o que conhecemos por Cabala – (qabbãlãh). Afirma-se que esse material foi retirado dos originais que remontam a Simeon bem Yohai, rabino da Galiléia do século II d.C.. Ameaçado de morte pelos romanos Simeon escondeu-se numa gruta por doze anos; dez séculos mais tarde seus escritos foram ali encontrados configurando-se a fonte dos livros do Zohar. Os ensinamentos de Simeon foram retirados, segundo se supõe, da hokmah nistarah, ou sabedoria sagrada de Moisés, que inicialmente estudou com sacerdotes egípcios.

Há um excerto de um dos livros do doutor Goffredo da Silva Telles que imagino ser adequado neste momento.

“O tradicional distanciamento, que sempre foi mantido pelos pesquisadores do Mundo do Espírito e da Cultura, relativamente ao mundo da Materia e da Natureza, assim como o clássico repudio à terminologia das Ciências Físicas nas Ciências Humanas, em nome da dignidade da etica e do Direito, é anacronismo avesso ao simples conhecimento das cousas. É manifestação obsoleta, contrária às estruturas da vida.”

É fácil compreender que a reação de cada pessoa ante os fatos da vida depende de suas crenças. Diferentes visões do mundo geram diversas interpretações do mesmo problema.

Todos nós temos algum tipo de visão do mundo segundo o qual nos orientamos. A visão do mundo que atualmente predomina no Ocidente teve sua origem no materialismo dos séculos passados. Por vezes encontramos essa visão misturada com idéias relativamente novas como a teoria da relatividade ou o princípio da incerteza de Heisenberg. Mesmo se ignorássemos a existência de tais princípios e conceitos, por sua simples inserção à cultura eles interpenetrariam nossas vidas e afetariam a nossa visão do mundo.

Estudos revelam que as pessoas se tornam hostis e defensivas quando alguém desafia suas crenças. Alguns axiomas compõem o que foi denominado “o inconsciente filosófico”, do qual, em grande extensão, não nos damos conta. Quando estes são ameaçados é comum que as pessoas sintam-se pessoalmente agredidas. A visão de mundo baseada nessas premissas afeta nossas experiências e ações muito mais do que imaginamos. Nossa crença sobre como é o mundo influencia nossas decisões e a forma como interpretamos o que ocorre à nossa volta.

A visão de mundo que prevalece no Ocidente deu origem à nossa ótica fragmentada do universo e de nós próprios. Essa visão baseada no chamado reducionismo do passado levou à análise das coisas em componentes progressivamente menores. A partir dessa perspectiva o mundo adquire um caráter material e parece composto de unidades isoladas e independentes.

De acordo com o físico David Bohm esse tipo de pensamento é um dos principais fatores determinantes da atitude divisionista que permeia o mundo contemporâneo.

Nossa tendência para fracionar a realidade que percebemos através dos sentidos é estimulada pela linguagem que enfatiza as diferenças. Vemos tudo aparentemente separado – árvores, rios, pássaros, pessoas, mares, etc.; talvez nosso ajuste focal esteja restrito a um ângulo muito estreito.

Agora seremos obrigados a reconhecer a terra como uma pequena aldeia global. A comunicação planetária instantânea e o crescente comprometimento dos recursos naturais são alguns dos acontecimentos que devem contribuir para que isto aconteça. Estamos tendo de abrir nosso foco para um ângulo de 360°.

Ao mesmo tempo a física moderna revela: aquilo que vemos imediatamente é na realidade um aspecto superficial do universo quântico. Tudo que imaginamos serem coisas reais a rigor são diminutas ondas de energia condensadas. Há entretanto ali relativamente mais campo que matéria.

Erwin Schroedinger, fundador da mecânica quântica, afirmou:

“Embora se configure inconcebível para a razão comum (…) você e todos os demais seres conscientes estão integrados reciprocamente. Portanto, esta sua vida atual não é meramente uma parte de toda a existência, senão que, em certo sentido, é o todo (…) Assim, você pode se lançar ao chão, espraiado na Mãe Terra, com a convicção de que você é uno com ela e ela contigo.”

Teillard de Chardin, paleontólogo jesuíta, estava absolutamente convencido pela ciência e pela filosofia que o universo é um todo indissociável.

“Quanto mais distante e profundamente penetramos na matéria, através de métodos progressivamente mais poderosos, mais somos confundidos pela interdependência de suas partes. Cada elemento do cosmos foi positivamente tecido por todos os demais (…) É impossível cortar esta teia para isolar uma parte sem que ela fique desemaranhada e rasgada em todas as suas extremidades.”

Quando todos nós soubermos viver conscientes de sermos partes intrínsecas do todo, a nova mitologia em formação no Ocidente, poderemos dizer que está instalado o novo paradigma e restabelecida a integridade ecológica.

CAPÍTULO II

Não é difícil entendermos que nossa relação com o Planeta é de consumidores para consumido. Somos grandes agentes de transformação da terra. Mesmo após a morte continuamos a consumir através de nossa descendência e outras iniciativas anteriores que se perpetuam no tempo.

Somos o resultado de nossa herança genética modificada por nossa cultura. Este “edifício”, suficientemente forte para nos garantir sobrevivência física através de inúmeras gerações, está dando sinais de colapso devido à sua atual incapacidade de se reciclar adequadamente. Por tais características genéticas e culturais, foi possível até então que nos impuséssemos enquanto espécie em detrimento de tudo à nossa volta. Esta predominância não aconteceu ao acaso e muito menos à revelia da natureza.

Todavia, sempre é tempo de enfrentarmos o nosso mais terrível inimigo: nós mesmos, nossa cultura, nossos mitos, nossos apegos, nossa insaciável demanda por sempre mais bens materiais.

Continuamos a ver o mundo sob uma ótica fragmentada, como se matéria fosse separada de espírito (consciência) e este fosse superior àquela. Na verdade não existe diferença, tudo é uno com a natureza.

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ÉTICA

pág.25:

… O Doutor Goffredo, em seu “ETICA” explica que distorções desse tipo são geradas a partir de uma determinada “tábua” de valores e dos juízos dali decorrentes.

“No juízo de valor, uma idéia de medida, de quantidade, de importância (e de limite) é atribuída a alguma outra idéia.”

Uma nação que afirma ser o homem fonte de poder original não pode pretender incriminá-lo por emitir cheque sem suficiente provisão de fundos. Tais comportamentos podem ser reflexos de uma cultura antropocentrista radical, que relega a natureza de tudo a um plano secundário, menos importante em relação ao homem. Ele se imagina de uma espécie fantasiosamente superior e, tal qual no caso daquela torneira apenas fincada na parede, divorciado do resto do mundo. No todo, pensamos e agimos de forma pouco razoável como as crianças crédulas e inconsequentes, porém, cheios de malícia, sem a desejável pureza.

Talvez, por isto, a maioria de nós não seja capaz sequer de entender o que acontece no mundo em que vive; queremos imaginar que há um Deus virtual, piedoso, que nos privilegia e irá nos salvar milagrosamente na hora precisa. Acreditando sermos os donos do mundo, nos apropriamos dele. Continuamos a nos multiplicar em progressão geométrica ocupando espaços que pertenceram a outros seres, inclusive humanos. Só no Brasil, nos últimos quatro séculos foram dizimadas cerca de 800 etnias indígenas e milhares de espécies animais e vegetais. O movimento que tenta evitar, deter, controlar ou moderar esta nossa vocação predatória do ambiente encontra grande dificuldade.

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FILOSOFIA

pág. 45:

… Para a existência de uma ordem é imprescindível que a disposição das coisas esteja adequada.

É evidente que intrinsecamente essa ordem possuirá sua regra e sua fórmula.

O nome genérico que possuem todos os princípios de que, sem exceção, todas as ordens dependem é lei.

Antecipando-se a qualquer ordem ou disposição de seres, haverá, implícita e intrinsecamente, um fim, para cuja consecução tudo estará disposto, consequentemente.

Esta regra da natureza não é para ser ignorada, jamais. Contrário senso haverá desordem ao invés de ordem.

Neste sentido uma lei só existe enquanto tal se for perfeita, isto é, se já estiver pronta na natureza. Podemos acatá-la, compreende-la e nos submetermos a ela ou violá-la e arcar com o ônus desta escolha.

Na dimensão antropocêntrica, por exemplo, quando elaboramos uma norma de comportamento social temos a oportunidade e a possibilidade de contemplar a dimensão ecocêntrica ou ignorá-la e observar apenas uma causa própria da espécie isoladamente.

O fato de escolhermos a segunda opção constitui-se num grande equívoco, pois implica na melhor das hipóteses em obtenção de alguma ordem relativa, o que significa dizer, genericamente, desordem, uma vez que a espécie componente da segunda hipótese representa apenas uma pequena parcela do todo.

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SOCIOLOGIA

pág.54:

… Como afirma o Doutor Waldemar de Gregori em seu “Cibernética Social”, anatropia é o movimento em direção ascencional, maior e mais alto grau de organização, complexificação do sistema ou maximocracia na dinâmica de energização; entropia é o movimento em direção à queda, degradação do sistema ou minimocracia na dinâmica da energização. É a luz vermelha do sistema, é o ponto de incidência do ‘feedback’, já que tudo é um esforço antientrópico; e homeostase é a oscilação em torno da média, sofrendo a atração dos dois pólos opostos, mantendo-se entre entre o piso e o teto toleráveis, além dos quais o sistema se desintegra por excesso ou falta.

O mais interessante de toda esta lógica é que não precisamos, necessariamente, viver alienados do nosso cotidiano para contemplarmos a perspectiva ecocêntrica. Mesmo porque existe a possibilidade de, como simples agentes de transformação, sermos excluídos em curto ou médio prazo evolutivo, e, se for este o caso, o melhor que podemos fazer para ajudar é o que já estamos fazendo, trabalhando neste sentido!

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ANTROPOLOGIA

pág. 19

… A cientista autora de “O Ser Quântico” assina Danah Zohar. O “Zöhar”, “luz”, “esplendor”, é uma coleção de escritos hebraicos esotéricos que vieram a lume por volta de 1305, graças a um erudito judeu espanhol, Moisés de León. Esse corpo tradicional de sabedoria, assim como as técnicas de sua utilização constitui o que conhecemos por Cabala – (qabbãlãh). Afirma-se que esse material foi retirado dos originais que remontam a Simeon bem Yohai, rabino da Galiléia do século II d.C.. Ameaçado de morte pelos romanos Simeon escondeu-se numa gruta por doze anos; dez séculos mais tarde seus escritos foram ali encontrados configurando-se a fonte dos livros do Zohar. Os ensinamentos de Simeon foram retirados, segundo se supõe, da hokmah nistarah, ou sabedoria sagrada de Moisés, que inicialmente estudou com sacerdotes egípcios.

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FÍSICA

pág. 19 a 22:

Muitos com preconceito hão de torcer o nariz ate o que, eventualmente chamarão de promiscuidade pseudo científica, espúria mistura improvável – principalmente por causa da inclusão das ciências ocultas – mas, ao final, hão de compreender que de fato jamais houve qualquer divórcio verdadeiro entre as ciências, fossem quais fossem.

Fritjoff Capra, por exemplo, em “O Tao da Física” abre seu livro citando o antropólogo e místico Carlos Castañeda; logo a seguir Capra faz um estudo comparativo entre misticismo oriental e física moderna demonstrando que, cada um à sua maneira, fala da mesma unidade de todas as coisas, da importância de se superar o dualismo e a noção de tempo e espaço.

Isaac Newton, Carl G. Jung, Leonardo da Vinci, Paracelso, Thomas Edson, Francis Bacon, e Einstein, entre outros, eram cientistas e místicos ao mesmo tempo; este último tinha a “Doutrina Secreta” de H.P. Blavatsky como livro de cabeceira. …

… Há um excerto de um dos livros do doutor Goffredo da Silva Telles que imagino ser adequado neste momento.

“O tradicional distanciamento, que sempre foi mantido pelos pesquisadores do Mundo do Espírito e da Cultura, relativamente ao mundo da Materia e da Natureza, assim como o clássico repudio à terminologia das Ciências Físicas nas Ciências Humanas, em nome da dignidade da etica e do Direito, é anacronismo avesso ao simples conhecimento das cousas. É manifestação obsoleta, contrária às estruturas da vida.”

É fácil compreender que a reação de cada pessoa ante os fatos da vida depende de suas crenças. Diferentes visões do mundo geram diversas interpretações do mesmo problema.

Todos nós temos algum tipo de visão do mundo segundo o qual nos orientamos. A visão do mundo que atualmente predomina no Ocidente teve sua origem no materialismo dos séculos passados. Por vezes encontramos essa visão misturada com idéias relativamente novas como a teoria da relatividade ou o princípio da incerteza de Heisenberg. Mesmo se ignorássemos a existência de tais princípios e conceitos, por sua simples inserção à cultura eles interpenetrariam nossas vidas e afetariam a nossa visão do mundo.

Estudos revelam que as pessoas se tornam hostis e defensivas quando alguém desafia suas crenças. Alguns axiomas compõem o que foi denominado “o inconsciente filosófico”, do qual, em grande extensão, não nos damos conta. Quando estes são ameaçados é comum que as pessoas sintam-se pessoalmente agredidas. A visão de mundo baseada nessas premissas afeta nossas experiências e ações muito mais do que imaginamos. Nossa crença sobre como é o mundo influencia nossas decisões e a forma como interpretamos o que ocorre à nossa volta.

A visão de mundo que prevalece no Ocidente deu origem à nossa ótica fragmentada do universo e de nós próprios. Essa visão baseada no chamado reducionismo do passado levou à análise das coisas em componentes progressivamente menores. A partir dessa perspectiva o mundo adquire um caráter material e parece composto de unidades isoladas e independentes.

De acordo com o físico David Bohm esse tipo de pensamento é um dos principais fatores determinantes da atitude divisionista que permeia o mundo contemporâneo.

Nossa tendência para fracionar a realidade que percebemos através dos sentidos é estimulada pela linguagem que enfatiza as diferenças. Vemos tudo aparentemente separado – árvores, rios, pássaros, pessoas, mares, etc.; talvez nosso ajuste focal esteja restrito a um ângulo muito estreito.

Agora seremos obrigados a reconhecer a terra como uma pequena aldeia global. A comunicação planetária instantânea e o crescente comprometimento dos recursos naturais são alguns dos acontecimentos que devem contribuir para que isto aconteça. Estamos tendo de abrir nosso foco para um ângulo de 360°.

Ao mesmo tempo a física moderna revela: aquilo que vemos imediatamente é na realidade um aspecto superficial do universo quântico. Tudo que imaginamos serem coisas reais a rigor são diminutas ondas de energia condensadas. Há entretanto ali relativamente mais campo que matéria.

Erwin Schroedinger, fundador da mecânica quântica, afirmou:

“Embora se configure inconcebível para a razão comum (…) você e todos os demais seres conscientes estão integrados reciprocamente. Portanto, esta sua vida atual não é meramente uma parte de toda a existência, senão que, em certo sentido, é o todo (…) Assim, você pode se lançar ao chão, espraiado na Mãe Terra, com a convicção de que você é uno com ela e ela contigo.”

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BIOLOGIA

pág. 46:

Assim, mesmo que queiramos nos privilegiar em detrimento de tudo o mais nós não podemos, pois por força de lei, somos e, mais do que nunca, estamos adstritos a termos de contemplar a perspectiva ecocêntrica. É a nossa única alternativa amplamente consciente, mesmo que o canhestro fim almejado seja apenas, egoisticamente, a preservação da nossa espécie.

É inevitável, não existe separação de fato, pois, sob esta ótica ampliada, se quisermos ser antropocêntricos teremos de ser necessariamente ecocêntricos.

Não podemos continuar extinguindo os elementos que compõem a estrutura da vida no planeta sob a certeza de chegarmos à ruína absoluta.

Admitindo-se a hipótese de eu não ter sido suficientemente claro, convincente e didático, para melhor compreensão do que pretendo dizer, a partir deste ponto, é importante uma exposição da Teoria Gaia.

“James Lovelock fez uma descoberta iluminadora que o levou a formular um modelo que é, talvez, a mais surpreendente e mais bela expressão de auto-organização – a idéia de que o planeta Terra como um todo é um sistema vivo, auto-organizador. (…)

O processo de auto regulação é a chave da idéia de Lovelock. Ele sabia, pela astrofísica, que o calor do sol aumentou em 25 por cento desde que a vida começou na Terra e que, não obstante esse aumento, a temperatura da superfície da Terra tem permanecido constante, num nível confortável para a vida, nesses quatro bilhões de anos. E se a Terra fosse capaz de regular sua temperatura, indagou ele, assim como outras condições planetárias – a composição de sua atmosfera, a salinidade de seus oceanos, e assim por diante – assim como os organismos vivos são capazes de auto-regular e de manter constantes a temperatura de seus corpos e também outras variáveis? Lovelock compreendeu que essa hipótese significava uma ruptura radical com a ciência convencional. (…)

Nessa época Lovelock não tinha idéia de como a terra poderia regular sua temperatura e a composição de sua atmosfera: (…) No entanto, ao mesmo tempo, a microbiologista norte-americana Lynn Margulis estava estudando os processos que Lovelock precisava entender – a produção e a remoção de gases por vários organismos, incluindo especialmente as miríades de bactérias presentes no solo da Terra. (…) Logo depois, vários colegas dela recomendaram que conversasse com James Lovelock, o que levou a uma longa e proveitosa colaboração, a qual resultou na hipótese Gaia plenamente científica. (…)

O aspecto de destaque desses laços de realimentação está no fato de que ligam conjuntamente sistemas vivos e não vivos. Não podemos mais pensar nas rochas, nos animais e plantas como estando separados uns dos outros. A teoria de Gaia mostra que há um estreito entrosamento entre as partes vivas do planeta – plantas, micro-organismos e animais – e suas partes não vivas – rochas, oceanos e a atmosfera.

(…) Os vulcões da Terra tem vomitado enormes quantidades de dióxido de carbono (CO2) durante milhões de anos. Uma vez que CO2 é um dos principais gases de estufa, Gaia precisa bombeá-lo para fora da atmosfera; caso contrário, ficaria quente demais para a vida. Plantas e animais reciclam grandes quantidades de CO2 e de oxigênio nos processos de fotossíntese, da respiração e da decomposição. No entanto essas trocas estão sempre em equilíbrio e não afetam o nível de CO2 da atmosfera. (…)

No processo de erosão das rochas, estas combinam-se com a água da chuva e com o dióxido de carbono para formar várias substâncias químicas denominadas carbonatos. O CO2 é então retirado da atmosfera e retido em soluções líquidas. (…) Lovelock e outros descobriram que a presença de bactérias no solo aumenta enormemente a taxa de erosão das rochas. (…)

Os carbonatos são então arrastados para o oceano, onde minúsculas algas, invisíveis a olho nu, os absorvem e os utilizam para fabricar primorosas conchas calcárias (de carbonato de cálcio). Desse modo, o CO2 que estava na atmosfera vai parar nas conchas dessas algas diminutas (…). Além disso, as algas oceânicas também absorvem dióxido de carbono diretamente do ar.

Quando as algas morrem, suas conchas se precipitam para o fundo do mar, onde formam compactos sedimentos de pedra calcária. (…) Devido ao seu enorme peso, os sedimentos de pedra calcária gradualmente afundam no manto da terra e se fundem, podendo até mesmo desencadear os movimentos das placas tectônicas. Por fim, parte do CO2 contido nas rochas fundidas é novamente vomitado para fora por vulcões, e enviado para uma outra rodada do grande ciclo de Gaia.”

Sob esta perspectiva impõe-se a revisão e substituição dos velhos paradigmas que orientaram nossa espécie até então.

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HISTÓRIA

pág. 11 e 12

… Já vai bem longe o dia em que pela primeira vez me ocupei de pensar acerca das mensagens da natureza e, desde então, nunca mais me afastei desta empreitada.

Sempre tive enorme vontade de entender a dinâmica da vida e suas implicações. Mesmo nos momentos em que estive envolvido com qualquer outro tipo de atividade laborativa jamais pude me livrar dessa curiosidade que herdamos dos nossos antepassados. Feliz ou infelizmente, não sou capaz de esquecê-la, algumas questões me acompanharam por mais de trinta anos até serem transformadas em conhecimento, outras, e as mais recentes, tenho convicção de que não me abandonarão sem que eu as responda.

Enquanto cursava o bacharelado em Direito, de 1987 a 1991, “intuía” – se é que posso assim classificar – que em algum ponto, na base, nos alicerces, no passado de nossa estrutura jurídica havia algo mal formulado, equivocado ou mal explicado.

Não concordava com a doutrina quando esta afirmava ser o Direito um fenômeno estritamente cultural, ou meramente, humano. Resisti, com honestidade a essa “catequese”, não aceitei a divisão cartesiana que separava tudo em dois campos: de um lado as leis naturais, como a Física e a Matemática, e de outro as leis culturais como Direito e a Sociologia, por exemplo. Posteriormente entendi tratar-se de um corte epistemológico, mas, antes que isto acontecesse, pus-me a estudar.

Passei a me interessar pela história e a construção dessa lógica até, enfim, encontrar o que me pareceu ser o ponto vernal. Estava localizado entre a escola pitagórica e a sofista o momento em que os Homens deixaram de interpretar o Direito como um fenômeno maior, emanado de Deus, para reduzi-lo a simplesmente humano.

Em outras palavras, os filósofos pré-socráticos viam o Direito como uma manifestação de um Deus ou dos deuses e os sofistas que fora o homem, com seu intelecto e cultura que, isoladamente, houvera criado o Direito. Para eles, este era um fenômeno exclusivamente cultural.

É importante ressalvar que, por motivos que abordarei posteriormente o conceito que tínhamos do que fosse “Deus”, também cultural, foi mudando através dos tempos até chegarmos a este Deus virtual; um Deus mal humorado, distante, isolado em seu reino, sentado em seu trono como um velho.

Muito antes desse “Deus” cultivado o homem encontrou na sua comunhão com a natureza uma força maior à qual rendia suas homenagens. A partir do momento em que essa força começou a ser cultuada passou a ser comunicada, de geração a geração, pela forma verbal, com todas as limitações inerentes a esse meio. Assim, seu significado foi sendo modificado através dos tempos até chegar ao ponto de ter vários simultaneamente.

Voltando aos sofistas, um de seus grandes méritos foi promover através da lógica e da razão aquela separação. Naquele momento histórico, por meio daquele Deus, os sacerdotes exerciam grande influência sobre sua época atribuindo direitos de origem divina e duvidosa segundo regras igualmente questionáveis. Muitos direitos foram atribuídos daquela maneira. Esta a origem de inúmeras injustiças perpetradas no Ocidente desde então. O suplício de mulheres e escravos se deve a esse Direito emanado dos intérpretes de uma divindade de características unicamente masculinas, que afirmava serem algumas espécies humanas as únicas herdeiras do paraíso terrestre. A partir desta sofrível justificativa nos apropriamos do mundo e de outros seres. Esta distorção se concretizou e perenizou como se verdade fosse e assim permanece produzindo efeitos atualmente.

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ESPIRITOLOGIA

pg. 41:

… Nas palavras de Albert Einstein: “podemos então considerar a matéria como constituída por regiões do espaço nas quais o campo é extremamente intenso. (…) Não há lugar nesse novo tipo de Física para campo e matéria, pois o campo é a única realidade.”

Para Einstein e para a física quântica não existe divisão entre matéria e energia. As partículas são concentrações de energia que se condensam e solvem ciclicamente em ondas por razões ainda desconhecidas. O mais importante aspecto dessa descoberta, para este trabalho, é o destronamento dessa lógica bidimensional cartesiana e, também, a desmistificação da idéia de que o homem tenha sido o único ser criado por Deus à sua imagem e semelhança para ser o senhor da terra e do universo. Afinal, é possível que sejamos todos formados pela mesma energia original, que compartilhamos o mesmo campo com tudo que é – por nossa cultura – considerado inferior, como minerais, animais, vegetais e anjos, ou superior, como deuses, semideuses, santos, etc..

“A cooperação harmônica de todos os seres surgiu não das ordens de uma autoridade superior, exterior a eles próprios, mas do fato de que todos fazem parte de uma hierarquia de totalidades, compondo um padrão cósmico, e aquilo a que eles obedeciam eram os ditames internos de suas próprias naturezas.”

Eu e o Pai somos um”. Essas palavras de Jesus Cristo, por paradoxal que possa parecer, talvez queiram dizer exatamente o que acabo de sugerir no parágrafo anterior. Para que compreendamos, basta que admitamos que o “Pai”, o criador a que Jesus se refere, é exatamente essa energia, vácuo ou campo original já mencionada, componente universal de todos, de tudo e do nada, simultaneamente. Sim, pois, se o nada, o vácuo perfeito existe, mesmo que apenas conceitualmente, idealmente, tem a mesma origem de tudo o mais, logo, Deus é o tudo, mas para tanto tem que ser também o nada!

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Capra Fritjof, “A Teia da Vida”, pág. 92 e 93, Ed. Cultrix, 1996.

Campbell Joseph, “O Poder do Mito”, Editora Palas Athena, 3ª edição, ano 1992, pág. 22.

“O Ser Quântico”, Zohar Danah, Editora Best Seller, ano 1990, págs. 56 a 58.

“O Tao da Física”, Capra Fritjof, Editora Cultrix, ano 1996, pág. 160.

Needham Joseph, “Science and Civilization in China”, vol. 2, pág. 582, Cambridge University Pres, 1956.

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Benjamin Antônio Hermam de Vasconcellos – “Objectivos do Direito Ambiental” – in Actas do I Congresso Internacional de Direito do Ambiente da Universidade Lusíada – Porto – 1996.

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